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O SEMINÁRIO do Colégio da Antena do Campo Freudiano de Lisboa é coordenado pelo Prof. Dr. José Martinho e está aberto a todos os interessados pela Psicanálise. Teve início em 1988 e realiza-se presentemente na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Campo Grande nº376, 1700 Lisboa Entrada: Livre |
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Para os grafos e matemas de Lacan instalar nas "Fontes" do seu computador: Download Ecrits PC TTF and PS fonts * 2011-2012 Leituras Todas as quartas-feiras, 12h30-14h30 Sala A12, ULHT
Resumo
O título que nos guiará este ano é : Leituras, no plural. Este título veio-me à cabeça quando terminámos o Seminário ACF/CEP do ano passado, no preciso momento em que se lia O Leitor, de Bernard Schlink; mas foi-me também soprado pelo tema que Jacques-Alain Miller propôs nessa mesma altura em Londres para o X Congresso da NLS (Telavive, 16 - 17 junho 2012): Ler um sintoma. O texto (bilingue) da proposta de Jacques-Alain Miller foi publicado no último nº da revista Afreudite (http://revistas.ulusofona.pt/index.php/afreudite). Aconselho que o leiam ou releiam. Por hoje, limito-me a sublinhar alguns pontos que nos vão ajudar na tarefa deste ano. Depois de ter distinguido o «ser» e o «real», Jacques-Alain Miller pergunta onde se encontra o real na psicanálise; e responde que não é ao nível do desejo, da sua dialética e ética, mas ao nível do sintoma. Há no entanto que precisar, pois o sintoma psicanalítico é como o deus Janus, tem duas faces, uma de verdade e outra real. O sintoma que avisa a consciência de que a censura exercida por ela faz adoecer é tido por Freud como uma mensagem do inconsciente, portador de uma significação a encontrar; mas o sintoma é também uma vicissitude da pulsão, uma satisfação substitutiva que se encontra para lá do prazer-desprazer ligado à revelação da verdade. Freud acrescentará a esta dupla face do sintoma psicanalítico o fato que ele apenas se cristaliza com a relação transferencial. Dou-vos um pequeno esquema com esta tripartição: -Formação do inconsciente: significação - verdade Sintoma analítico - vicissitude pulsional: satisfação – real - transferência (para lá da repetição) É porque o sintoma é uma satisfação que, contrariamente às outras formações do inconsciente (sonho, lapso, etc.), ele se repete, dura, não só antes, domo durante e depois da análise. É por este motivo que o sujeito não larga o seu sintoma, o ama como a si mesmo. Esta permanência mostra que o real do sintoma analisável é inanalisável, não só obscuro ou impossível de conhecer, mas intratável e incurável. Esse real sintomático não é natural, mas artificial, produzido pela linguagem que violenta o indivíduo da espécie humana antes do seu nascimento até à morte. É esse encontro ou série de encontros com a linguagem que transforma o indivíduo num sujeito falado e falante, mais precisamente, num sujeito dividido entre a palavra e o gozo. O sintoma não é um estado da alma do sujeito, mas um acontecimento corporal, diferente do fenómeno psicossomático. O problema é que esta ação do significante sobre o organismo arrasta consigo um efeito de significado, que Freud interpretou em função do «complexo de Édipo». Édipo é a estrutura triangular que Freud encontrou para lá do narcisismo. Mas com o tripé RSI, Lacan vai não só além da relação dual, como da interpretação edípica. Desde logo, ele deixa de se interessar pelo sentido do sintoma, para melhor assediar a sua matéria (moterialité), que designa pela letra sigma (å). L´Étourdit aconselha a quem lê o sintoma que se afaste da semântica e se aproxime da homofonia, da gramática e da lógica ou topologia do mesmo. O que é que se pode ler? Deixo em aberto a questão de saber se as marés leem o movimento da lua, se andorinha lê a chegada da primavera, ou até se se pode ler nos olhos do outro. No caso que mais interessa a psicanálise, diria que aquilo que se lê é a letra ou o que toma esse valor para um leitor. A letra pressupõe o campo da linguagem. No sentido estrito, a letra é o nome que se dá à matéria-prima da (palavra) escrita. É igualmente a sua forma material. Cada um aprende a desenhar letras que já existem, e ao mesmo tempo anda à procura da sua própria letra. Conforme o esboço que faz, pode-se, então, dizer que tem uma letra bonita, ou uma letra feia. Há também quem pense que a letra ensina sobre quem a escreve. A Grafologia, pretende analisar a personalidade de um indivíduo unicamente na base da sua caligrafia; por exemplo, a sua assinatura ou o espaço onde assina, como os pontos que mete ou não nos iis e o modo como traça a barra sobre a linha do T, ajudam o grafologista a ajuizar e avaliar o carácter da pessoa. Apesar da Grafologia dar mais importância à letra ou ao seu desenho do que ao sentido que ela transporta, é óbvio que não é desta forma que os lacanianos falam da letra, mais particularmente da letra e da leitura do sintoma.
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2010-2011
Política e Psicanálise Sextas-feiras, 13h-15h, sala A.1.5, ULHT
Resumo das primeiras sessões
O título do Seminário deste ano é: Política e Psicanálise. Para aqueles que possam considerar esta conexão algo estranha – caso do nosso amigo Michael Knoch – direi simplesmente que procuro, com ela, responder às preocupações da Linha de Acção Psicanálise da Unidade de Estudos e Investigação em Ciência, Tecnologia e Sociedade (Unidade de Investigação reconhecida pela FCT), mas também e sobretudo corresponder à transferência de trabalho existente na Associação Mundial de Psicanálise. Lembro que o próximo Congresso da AMP (2012) tem como título “A ordem simbólica no século XXI já não é o que era”. Mas antes deste evento realiza-se em Londres (2-3 Abril de 2011) o IX Congresso da NLS sobre “Como opera a psicanálise”. Os dois Congressos tratarão à sua maneira da intersecção política-psicanálise, do que supostamente há de mais público com o que há de mais privado, entre o que há de mais colectivo e o que há de mais individual.[1] Este Seminário poderá deambular ao longo de vários temas, que irão da influência da política sobre a psicanálise, passando pela intervenção do psicanalista na sessão e na cidade, até à política das associações psicanalíticas. Só as democracias modernas é que concedem direito de cidadania à psicanálise, a qual não é tolerada pelas ditaduras e outras formas de totalitarismo. Mas mesmo em democracias como a nossa, o psicanalista encontra-se normalmente excluído dos debates públicos. Por outro lado, o psicanalista não é apenas um cidadão, que por exemplo vota, pois pode ter efeitos sobre o pensamento e o comportamento político dos seus analisandos. Por fim é sabido que têm havido inumeras discussões e cissões no movimento psicanalítico internacional. Que disse Freud sobre política e psicanálise? Adolescente, ele não ambicionou ser médico, mas seguir uma carreira política e diplomática. Depois de ter inventado a psicanálise, nunca quis que esta se tornasse uma visão do mundo, uma religião, uma filosofia ou uma ideologia política. Freud preferia ver a análise como fazendo parte da formação do leigo idóneo, uma espécie de educação privada podendo ter efeitos decisivos sobre o cidadão comum e o líder político.[2] Por exemplo, Freud escreveu um livro sobre um chefe de estado, Thomas Woodrow Wilson, presidente dos Estados Unidos da América entre 1912 e 1921. Trata-se de um perfil politico-psicológico escrito em parceria com o diplomata americano Williiam C. Bullit. A conclusão a que chegam os autores é que Wilson era um homem psiquicamente perturbado, e que os seus conflitos internos contribuíram bastante para o facto de ter levado a América para a Primeira Guerra Mundial. Em 2 de Abril de 1917 Wilson pede ao Congresso a declaração de guerra contra a Alemanha, para melhor assegurar a democracia no mundo. Foi, pois, sob a sua liderança que os Estados Unidos começaram a imaginar-se os salvadores do mundo. Terminada a guerra, Wilson irá à Conferência de Paris para tentar construir uma paz duradoura; propôs aí catorze medidas para evitar novos conflitos, mediante tratados que não humilhassem os derrotados, nem lhes impusessem penas exageradas. Na prática, nenhum país vencedor aceitou perder parte do seu botim, criando-se desde logo as condições que levariam à Segunda Guerra Mundial, 21 anos depois. A política de Wilson ilustra bem o que Freud diz no Futuro de uma Ilusão, a saber, que cada povo volta aos “primórdios históricos da ideia de Deus”, quando pretende representar a justiça ideal, recompensa o bem e castiga o mal. De facto, o Presidente Wilson compara o povo americano ao povo eleito, que acredita ter sido escolhido por Deus. Bem mais tarde a piedosa América devia demonstrar a pretensão de ser “God's own country”. Na sua cruzada contra os infiéis designados como o "eixo do mal" (Irão, Iraque e Coreia do Norte), George W. Bush aliou-se uma vez mais a esta tradição, bem como e à retórica que atravessa toda a história americana, logo à herança daquele que quis ser o pai da Sociedade das Nações, Thomas Woodrow Wilson. Foi também Wilson que, desde 1917, iniciou a globalização do capitalismo liberal, ao querer que este cumprisse o seu desejo de que, “pela Providência de Deus, uma luz nova se levante na América e projecte os seus raios da liberdade e justiça bem longe, sobre todos os mares e mesmo sobre as terras que estão em trevas e se recusam a vê-lo”. Wilson terminou o seu último discurso exaltando a cruzada americana: “Os nossos homens foram cruzados e foi assim que o mundo inteiro os considerou, e a vitória deles conduziu o universo a acreditar nos EUA como não acredita em mais nenhuma outra nação do mundo civilizado”. É no entanto provável que aquilo que Freud escreveu de mais importante sobre o assunto esteja num dos seus últimos textos, quando afirma que, tal como educar, governar e psicanalisar são “profissões impossíveis”. Que significa isto? Procuremos dar uma resposta a partir do ensino de Lacan. Foi precisamente como “impossível” que Lacan definiu a modalidade lógica do “real”. Se associarmos este “impossível” lógico ao uso pragmático que Freud faz do termo, podemos dizer que é o real que faz da política e da psicanálise "profissões impossíveis", pelo menos quando estas lhe tocam e se confrontam com ele. [1] “O colectivo é o sujeito do individual” (Lacan, no “Tempo lógico” in Écrits, Paris, Seuil, 1966). Dado que “não há clínica do sujeito sem clínica da civilização” (Miller; Laurent, Seminário O Outro que não existe e os seus comités de ética), a psicanálise está numa relação estranhamente íntima com o “mal-estar na civilização” (Freud). O exterior encontrando no interior e vice-versa, ela acaba por constituir um “sintoma social” (Lacan). [2] Cf. Lacan et la politique, par Jacques-Alain MILLER, Jean-Pierre CLERO et Lynda LOTTE,| Presses Universitaires de France, Cités 2003/4 - n° 16, ISSN 1299-5495, ISBN 2130534570, pag105 a 123. * Deixemos por um momento este “real” envolto no mistério, para sublinhar que a lógica faz parte do que Lacan chamou a “ordem simbólica”, que é basicamente a estrutura da linguagem ou a “língua” de Saussure; e, subsidiariamente, as formas e os efeitos que a palavra oral e escrita têm. Na sua Política, Aristóteles define o Homem como zoon logon politikon, animal falante e político.[1] A partir desta definição, podemos dizer que a Política é a principal forma que toma a ordem simbólica, bem como o efeito mais decisivo que tem sobre o ser que está numa relação privilegiada com o Logos.[2] A política e o mundo mudaram muito desde Aristóteles. No decorrer do ano, abordaremos algumas destas mudanças. Por ora, o problema que queria levantar é o seguinte: seguindo o princípio aristotélico e freudo-lacaniano da Palavra, qual é a relação que o falante de hoje tem com a ordem simbólica que reina nos Estados de Direito? Para o sujeito das actuais democracias, esta relação corresponde basicamente à “liberdade de expressão”. Trata-se não só de um direito fundamental do homem e do cidadão, como de um direito das mulheres, das crianças, etc. Para mais é um direito que se erigiu em ideal universal. Mas o que não queria que esquecêssemos é que este ideal parece ter tido origem, ou pelos menos é consonante com a “associação livre” de Freud, mas também com a estrutura que determina esta liberdade, aquela que Lacan chamou o “Discurso do Analista”.[3] A liberdade de expressão equivale ao dizer tudo, ao qual veio corresponder, a partir dos anos 90 do século passado, o ver tudo. À palavra rainha juntou-se, pois, o olho absoluto. [4] Como sabemos, a psicanálise não é uma prática do olhar, da observação, do exame, da inspecção e introspecção. Para chegar realmente ao que Freud chamou o “núcleo do ser”, a psicanálise teve de procurar o princípio do seu método na palavra. Significa isto que o psicanalista se limita a convidar quem o procura a falar livremente? Será que é assim que o psicanalista de hoje opera, que eu opero hoje como psicanalista? A resposta é “não”. Então, “que posso conhecer?”, “que devo fazer?” e o “que me é permitido esperar?” como psicanalista de hoje? Em primeiro lugar, diria que o psicanalista deve saber hoje que interpretar a fala do analisando ou decifrar o seu inconsciente não chega. De onde provem o saber exigido pela prática da psicanálise? O saber analítico não é objectivo, nem subjectivo. Ele não é um saber positivo como o da ciência; mas também não brota de um Oráculo, da Inspiração, ou da Contemplação teórica. O saber do psicanalista também não é o fruto da subjectividade; ele é adquirido numa experiência singular, pois provém do que se passou na sua análise como analisando, em particular do que aconteceu no final desta análise. O que é que aí se passa? Durante muito tempo apenas houve silêncio e mudez (motus) sobre isso. Foi para que este grand finale não se tornasse inefável que Lacan inventou o “passe”. A análise é terminável. O que é interminável é a formação do psicanalista, e a sua elaboração do que se passou no fim – inesquecível - da sua análise. Por outro lado, o saber analítico não possui nenhum outro tipo de garantia que não seja a do sabor que tem. Como diria Barthes, o saber tem de ter um sabor, pois um saber que não sabe a nada é um saber que não presta. Não presta para quem? Mesmo que o analisando precise de supor um saber ao analista, queira que o seu analista preste, para este último, o sabor consiste sobretudo no saber-fazer com o sintoma, tanto com o seu, como com o dos seus analisandos. A cada um cabe um sintoma, o seu sintoma. Mas foi só na nossa época – tempo em que o Outro deixou de existir - que se pôde destacar devidamente a importância do sintoma individual. No ensino de Lacan, o sintoma é menos um mal do que uma sorte, a sorte grande! Atenção: que o Outro tenha deixado de existir, não significa que quem tem de se haver sozinho com o seu sintoma saiba o que fazer com ele. Podemos, sim, dizer que foi o aparecimento massivo de sintomas solitários, por isso anti-analíticos, que obrigou os psicanalistas a colocar de maneira inédita a questão do que fazem face a estes sintomas por assim dizer autistas. Depois de os terem reconhecido, chamaram-lhes vários nomes: “anti-sociais”, “histriónicos”, “narcísicos”, “borderline”, “acontecimentos de corpo”, “psicose ordinaire”. O que convinha aqui e agora era assediar melhor o que assim se nomeia. O título do Intercartel da ACF de preparação para o Congresso de Londres da NLS (“Novos sintomas, novos psicanalistas”) serve também para indicar que, aos novos sintomas, devem corresponder novos analistas. Será esta a esperança a que conduz o saber e o fazer dos novos analistas? A esperança? É a última a morrer. Outro ditado: quem espera sempre alcança. Mas o mais importante é de onde se espera? Ora, na psicanálise, não é certo que convenha esperar alguma coisa. Quem espera desespera! [2] A palavra “política” (πολιτείαa) tem origem na palavra “polis” (πολιϛ), a cidade-estado dos antigos Gregos. Dela derivaram também palavras como "politikós" (cidadãos). Por extensão, “politeia” passou a ser a comunidade ou a colectividade urbana. Depois de se focar na preocupação com o Bem comum, e ter sido a arte de cuidar deste, a “política”, nas línguas da civilização latina e mais tarde francesa, começou a ser definida, desde 1265, como a "ciência do governo dos Estados". Esta ciência tem uma aplicação nos negócios internos (política nacional) e externos (política internacional). Os estudos da ciência política concernem também as atitudes e acções dos cidadãos no espaço público, por exemplo, em momentos eleitorais ou durante uma greve. [3] Jacques Alain Miller. (2004). “Fantasia”, conferência no Congresso da AMP de 2004, Comandatuba, Brasil. [4] Cf. o livro e a entrevista de G.Wajcman ( /http://www.dailymotion.com/video/xf0cj7_interview-g-wajcman-par-mh-brousse_news). Wajcman lembra-se que o “olho absoluto” tenta eliminar o “hors-champ” do campo da visão (palco de teatro, tela do quadro, etc.); tarefa impossível, que tem como contrapartida o facto que, doravante, quanto mais se olha, menos se vê. Neste sentido, a psicanálise existiria hoje como desenquadrada, ou como ponto cego da visão. * O que disse já, de modo algo intempestivo, é que o acto analítico não deve ser reduzido à interpretação. Jacques-Alain Miller escreveu este ano - nº 78 do “Journal des Journées” de 2010 da ECF - sobre a interpretação: “nada mais actual do que a grande ideia que Lacan fazia do psicanalista em 1953 (foi antes de ter de rebaixá-la, ao considerar a sua experiência efectiva com os psicanalistas praticantes) e a advertência que lhe dirige: ‘Que conheça bem a espiral em que a sua época o arrasta na obra continuada de Babel, e saiba da sua função de intérprete na discórdia das linguagens’”. Jam reitera aqui, para o mundo actual, a afirmação de Lacan que, na confusão das línguas (e das ideias) reinante, é importante que o analista saiba o que diz. Este propósito serve para lembrar que a interpretação - e não só a analítica - pode determinar o sentido de uma existência, ou como Lacan dirá mais tarde, do “ex-sistir”. O “rappel” de Miller era antecedido da seguinte consideração: “como é que um psicanalista que não sabe orientar-se na sociedade em que vive e trabalha, nos debates que inquietam a mesma, pode estar apto para se encarregar dos destinos da instituição psicanalítica?”. Bem, o dever do psicanalista como intérprete mantém-se actual. Só que a sua interpretação não deve decidir mais do sentido, mas incidir sobre a fuga do sentido, do sentido da existência que escapa ao sujeito contemporâneo. Esta escapadela metonímica do sentido remete para o objecto (a), a causa do desejo, tal como escapa à Lei, tanto à lei do Pai, como à do Direito. Entre a Lei e a causa do desejo há sempre um desfasamento, uma “clocherie”. O crucial hoje é saber se a psicanálise ainda causa ou não o desejo, se ela merece realmente ex-sistir no século XXI? Dito de outro modo, se a psicanálise deve ainda ou não fazer parte da questão da escolha de sociedade, e não apenas da opção que alguém pode tomar por uma ou outra sociedade psicanalítica? Não se trata pois de impor a/uma psicanálise como uma lei, mas de a desejar. Por vezes, parece que os dados já foram lançados, pois a psicanálise encontra-se cada vez mais ausente, invisível na nossa época. O que se pode dizer é que ela deve andar em maus lençóis, por exemplo que dorme com as pessoas erradas. Só que não existe a pessoa certa. Ouve-se a psicanálise a ser difamada. Eu continuo a honrar o seu nome. É também por este motivo que decidi este ano testemunhar a seu favor, como psicanalista, fundador da “Antena do Campo Freudiano”, e cidadão que, de um modo ou de outro, procura escavar um lugar para a psicanálise num espaço público que não lhe dá espaço, nem tempo. * Para decidir do lugar que convém criar para a psicanálise no espaço público, fui dando umas pazadas no “campo freudiano” tal como foi arado por aquele que me/nos tem orientado em matéria de psicanálise: Jacques Lacan. A minha pá trouxe à luz duas frases sobre psicanálise e política. Elas vão servir de pedras de toque para o que pretendo construir este ano. Eis as duas sentenças: “O inconsciente é a política” “Não devemos procurar a origem da noção do sintoma em Hipocrates, mas em Marx ». [1]
A primeira destas proposições fornece uma definição inédita de um termo que se tornou um dos conceitos fundamentais da psicanálise: o “Inconsciente”; a segunda distancia claramente o sintoma psicanalítico da clínica médica (e psicoterapêutica), para o colocar – via Marx - do lado da política, mais precisamente da economia política. Lembro que o ensino de Lacan segue quatro grandes momentos: o primeiro está focado no “imaginário” (I), o segundo, no “simbólico” (S), o terceiro, no “real” (R), e o quarto no “sinthome” (å). Entre as 2 frases acima citadas, Lacan passou de uma ênfase dada ao desejo (2º momento, à ênfase dada ao gozo ou, mais precisamente, ao gozo do sintoma (4º momento). Mas em 1963 ele avisa já: “o sintoma é da ordem do que vos ensinei a distinguir no desejo como sendo o gozo”.[2] Estamos agora em medida de dissipar um pouco do mistério que envolvia o “real” lacaniano e dizer que, na psicanálise, o mais real, para quem deseja, é o gozo do seu sintoma. Volto às duas frases. Dizer que “O inconsciente é a política” afasta da ideia feita que o inconsciente é algo de privado, fechado, solipsista, refugiado nas profundezas da alma de cada um. A frase indica que aquilo que a primeira tópica chama a “outra cena” do psiquismo não é independente do exterior, da relação transindividual, social. No aparelho psíquico do indivíduo há sempre um outro que serve de objecto, de modelo, de apoio ou de obstáculo. Lacan pode então enunciar : “o desejo é o desejo do outro”. Mas há sobretudo o Outro da fala e da linguagem. Por esta razão, Lacan afirmará em seguida que o “inconsciente é o discurso do Outro”. O desejo inconsciente enquanto discurso do Outro antecipa a fórmula “o inconsciente é a política”; antecipa ainda mais o “Discurso do Amo”,[3] que Lacan enuncia em Maio de 1968. Este serviu para dizer aos contestatários que, por mais justa que fosse a sua revolta contra o regime gaullista e o capitalismo, esta não devia fazer esquecer que é o inconsciente que governa toda a gente, que é ele o verdadeiro Amo ou Senhor. Este propósito foi qualificado de “reaccionário” pelos revolucionários. De facto, Freud e Lacan não foram “revolucionários”. Lacan lembrou que o termo “Revolução” vem da Astronomia e significa que “ça tourne en rond”. Lembrou, ainda, o que disse Hegel sobre o uso policial da mais perfeita das formas geométricas, o círculo, a saber, que serve para circular. Lacan não é, pois, revolucionário, mas subversivo; o que ele propõe a partir da análise é a “subversão do sujeito” na “dialéctica do desejo”. Lacan terá uma posição inédita no movimento de Maio 1968; ele pergunta aos estudantes que não o compreendiam se não tinham vergonha de não querer saber que gozavam; ao mesmo tempo convida-os a irem ao seu Seminário, de preferência, a procurar um psicanalista para se inteirarem do destino que o inconsciente lhes traça. [1] "L'inconscient c'est le politique ; l'Autre c'est aussi l'inconscient"(Le 10/5/1967, La logique du fantasme.). “L’origine de la notion de symptôme n’est pas à chercher dans Hippocrate mais dans Marx ". (Ornicar ? 4, p.106 ; 18/2/1975). Lembro, ainda, que Lacan disse, no começo dos anos 60, “l’inconscient nous a changé le monde”; efectivamente, como foi o caso para a pulsão sexual, o inconsciente transformou radicalmente os costumes contemporâneos. [2] “ Le symptôme [est] de l’ordre de ce que je vous ai appris à distinguer du désir comme étant la jouissance " (IX, p.25 ; 23 janvier 1963). Este progresso do ensino de Lacan corresponde em Freud à passagem da Interpretação dos sonhos, da Psicopatologia da vida quotidiana e do Chiste para Inibição, sintoma e angústia, onde o sintoma é menos definido como derivado do inconsciente, do que como gozo pulsional, “signo e substituto da satisfação que não ocorreu”. [3] « Discours du Maître ». « l’Autre, diz jam em Lacan et la politique (op.cit), a bien des dimensions : sociale, comme dans l’exemple du mot d’esprit ; logique, quand c’est la vérité qu’il valide ; et aussi politique, quand vous réduisez sa fonction à celle du signifiant maître qui capture le sujet, et l’attelle à un travail dont la jouissance lui est dérobée. C’est la structure dite « du discours du maître », et c’est aussi celle de l’inconscient ».
* * * 2009-2010 Homens e Mulheres
Resumo das primeiras sessões 1 Escolhi o título “Homens e mulheres” para o Seminário deste ano. Penso que chama suficientemente a atenção. Talvez o possamos também utilizar para as próximas Jornadas do Centro de Estudos de Psicanálise (15 de Maio 2010), e o nº 11 da revista Afreudite (http://revistas.ulusofona.pt/index.php/afreudite), publicação que, lembro, comemora este ano os seus 5 anos de existência. O meu título já sofreu alguma contestação, e como não podia deixar de ser vinda da parte de uma mulher, no caso da Doutora Selma, que diz que o acha engraçado para um livro, mas demasiado geral para poder ser tratado com a seriedade que requer a psicanálise. Acrescento, então, aos dois sexos um terceiro, e intitulo finalmente o Seminário: Homens, mulheres e psicanalistas É bem possível que a Selma tenha razão, porque, de facto, o que me tem caracterizado mais nos últimos tempos não é o sério, mas aquilo que chamaria uma “nova alegria”. Como já dizia o sábio Omar Khayyam: Entre la foi et l'incrédulité, un souffle, entre la certitude et le doute, un souffle. Sois joyeux dans ce souffle présent où tu vis, car la vie elle-même est dans le souffle qui passe. A Selma também já tinha reparado nesta nova alegria, atribuindo-a às minhas repetidas idas ao seu país, o Brasil. A mim parece-me que se trata mais do sintoma de uma nova e contagiosa epidemia, pois os colegas da AMP de quem mais me aproximo – nomeadamente Jacques-Alain Miller (“jam” como se escreve agora para simplificar) – começaram também a sofrer de um mal semelhante, de uma frescura ou ligeireza inédita. Isso está por exemplo patente no empirismo aventuroso e pouco ritualizado dos preparativos para as 38ªs Jornadas da ECF, sobre o tema “como se devém psicanalista no começo do século XXI?”. Jam lançou para este efeito um Oukaze (Dictat) na Net, uma espécie de jornal de parede maoísta (Dazibao), onde se pode ler um pouco de tudo. Por exemplo, a propósito de Alain Prost – convidado de honra destas Jornadas, talvez para mostrar que a máquina (cérebro) não é o piloto (mente) –, jam disse que era um “homem completo”. Perguntaram-lhe imediatamente se não se tinha tornado “gay”, se não se tinha apaixonado pelo campeão do mundo de Fórmula 1. A resposta que jam deu foi que não, porque a sua escolha de objecto continua heterossexual. Mais tarde, jam lançou também no Jornal das Jornadas12 piropos à bela Lilia Mahjoub. Outro exemplo. Pediram a jam para organizar uma noite dançante nessas Jornadas. Ele escreveu que iria, então, ocupar-se dos engatatões e das raparigas para casar. Uma colega retorquiu de imediato: machismo fora de moda. Hoje devia-se dizer: homens casados e engatatonas. Jam responde: tocado, Ai, Ui! Como vêem, tudo isto parece muito pouco sério. Aparentemente, os psicanalistas não podem, nem devem falar assim em público e em privado. E, no entanto são coisas deste tipo que ouvem todos os dias associar livremente nos seus divãs. Também se fala com bastante à vontade de homens e mulheres na vida quotidiana, o que deixa transparecer melhor a patologia desta. O tema agrada especialmente às revistas destinadas ao grande público; mas preocupa igualmente a gente séria, os poderosos e os sábios, os cientistas, os médicos, os psicólogos “and so on”. Na realidade, o meu título limita-se a acrescentar qualquer coisa ao tema do próximo Congresso da New Lacanian School (9-10 de Junho de 2010, em Genebra), sobre “ser filha, mulher e mãe no século XXI”. Acrescentei a condição masculina à feminina, e, no final, o “psicanalista” do século XXI. Como insisti no ano passado, este psicanalista está condenado a reinventar a psicanálise, na medida em que já não pode mais desconhecer que tudo aquilo com que operou até agora é um “semblant”. Aquilo que queria dizer este ano é que esta reinvenção da psicanálise não é independente do facto de, à partida, o dito “psicanalista” ser homem ou mulher. * Proponho começar por uma série de deixas que podem achar mais ou menos sérias. É o que chamarei o “reportório das maledicências”. Encontrei este verão em Espanha um azulejo que enuncia uma destas maledicências: “os inimigos do homem são três: [com letra gorda] SOGRA, CUNHADA e MULHER”. São frases deste tipo de que reza normalmente a História. Só que a crescente liberdade de opinião e o acesso à informação fizeram com que possamos saber igualmente hoje o que as mulheres dizem dos homens. Vou tratar primeiramente daquilo que os homens têm dito das mulheres. Depois, pediria a uma mulher; à Selma ou a outra candidata, para dizer o que as mulheres dizem dos homens. Tiraremos daí algumas conclusões. Em seguida, veremos aquilo que os psicanalistas têm dito sobre os homens e as mulheres. Pediria nessa altura ao Filipe – que resumiu bem a posição freudiana e lacaniana no seu Psicanálise & Arredores –, para apresentar esses ditos. Finalmente, veremos a relação disto tudo com o trabalho efectuado o ano passado sobre o Seminário I, o “semblant” e o “sinthome”. * "Se a mulher fosse coisa boa, Deus tinha uma".
Esta piada, vinda de não se sabe que boca, indica relativamente bem o problema do lado homem. O nome de Deus é evocado anonimamente por um que pode ser qualquer um, para afirmar que a mulher em geral é um mal, mais particularmente um mal-estar ou um sintoma para o homem. Criado à imagem e semelhança do Deus desiludido com a Coisa má, o homem da piada mostra preferir a solidão, o gozo auto-erótico, eventualmente a masturbação física ou espiritual. Como dizia Pessoa, o onanismo é o único amor que não engana.
Depois deste pequeno preliminar, um pouco da grande História. Ocidental. Começarei pela Grécia antiga por ser considerada o “berço” da civilização onde brotará, por volta de 1900, a Psicanálise. O que procuro é verificar, através das maledicências Clássicas, a justeza do dizer de Freud.
Hesíodo (Ascra, fim do século VIII a.C.) referia-se às mulheres como uma “raça” à parte. O termo “raça” é suficientemente forte para indicar que a mulher era concebida, não só como regulando a sua vida de modo diferente do homem, como gozando de uma maneira radicalmente diferente do outro elemento da espécie.
Parece mesmo ser o gozo feminino que está na base daquilo que os homens imaginaram como o Sem fundo, o Abismo ou o Mal radical, Inferno ou Hades, significantes forçosamente associados aos Campos Elísios, ao Paraíso ou Jardim das Delícias.
O Mal feminil é por exemplo ilustrado pelo mito Grego de Pandora, a primeira mulher, criada expressamente por Zeus para punir os homens[1].
Mas o Antigo Testamento (Deuteronomo) dirá igualmente que o maior castigo que Deus podia ter infligido a Holofernes foi de o fazer sucumbir nas mãos de uma mulher, Judith. Sacher-Masoch cita esta historieta em epígrafe da sua Vénus com Peliça, apontando para o facto do homem poder muito bem gozar do mal que lhe é feito.
Mal religioso e mítico, a mulher vai-se tornando pouco a pouco um mal político.
Como seria bom que o homem pudesse contentar-se com a posse de uma terra, de um boi e de um escravo. Isto seria suficiente para a economia doméstica, para satisfazer necessidades básicas como a alimentação.
O problema é que o animal falante e político é também possuído por um desejo irascível, nomeadamente sexual[2]; a isto acresce o facto da geração natural fazer com que o macho deva chegar ao coito com a fêmea para que a gestação possa ocorrer. Mas como é que o cidadão pode estar certo que a criança que a sua mulher trará no ventre é dele ou não? A este problema junta-se o da educação do futuro cidadão, pois o que conta é menos a reprodução da espécie do que a vida da Cidade. Durante séculos acreditou-se no que os Gregos acreditavam, a saber, que só a sexualidade masculina era activa na reprodução[3]. Da mesma maneira que a planta necessita de um vaso vazio e de uma terra para crescer, o agente da fecundação que era o homem precisa de um bocal ou local (de preferência seguro, daí o casamento) para depor o seu sémen, e assim poder cuidar da sua árvore genealógica, educar a sua descendência. Esta ignorância sobre a fecundação foi ampliada pela visibilidade do órgão sexual masculino-paterno em erecção, acabando por fazer com que a forma fálica prevalecesse na cultura.[4]
Freud retomou o antigo tema do Falo em 1923, juntando-o à lenda de Édipo. O complexo do mesmo nome serviu para indicar que é só o pai que detém (e não que tem) o Falo que deve possuir a mãe de família e proibi-la sexualmente aos descendentes.
Ao estabelecer esta conexão, o inventor da psicanálise acabou por atribuir à Lei (proibição do incesto) fundadora da condição humana a significação fálica (castração).
É também esta atribuição que lhe permitiu escrever a equação:
Falo = bebé
Ou por extensão:
Falo = bebé = excremento = seio
Esta segunda igualdade está por exemplo presente no conceito freudiano de “pequena parcela separável do corpo”.
Como é que os Gregos falaram da identidade Falo = bebé? Essencialmente de modo religioso e artístico, mais precisamente cómico.[5]
Se a lendária personagem de Édipo deu lugar a várias Tragédias, é em torno do Falo que gira a Comédia. Mais ainda que os Mistérios, a Comédia – considerada pelos Gregos um género teatral menor por utilizar a linguagem crua e popular própria aos homens inferiores, do estilo “levas uma paulada e ponho-te a esguichar merda”, frase em que encontramos metáforas do Falo e do excremento – mostra que o Falo é simultaneamente a fonte do apetite sexual e o maior obstáculo entre os sexos.
O Falo não é o órgão sexual masculino, mas o símbolo divino da geração natural. Este poder pertence por natureza aos deuses. Assim, o símbolo fálico é mostrado através do enorme pénis em erecção do deus da fecundidade, Priapo, filho de Dionísio e de Afrodite. Ele aparece também materializado na grande pedra (Omphallus) do Templo de Delfos, santuário situado no local que os Gregos consideravam o umbigo da terra ou o centro do mundo. Tanto no primeiro, como no segundo caso (pois a pedra sagrada substitui as crianças de Reia que Cronos devorava), o Falo simboliza a virilidade protectora da fertilidade feminina (capacidade de receber e gerar a vida), razão pela qual é normal que fosse guardado pelas sacerdotisas do Oráculo de Delfos.
Os Gregos acreditarem piamente que os homens e as mulheres lutam pela posse do Falo, mas o mais importante é que os seus Mistérios e Comédias indicavam que querer ter o Falo é uma fantasia que nunca se realiza, logo que é a Falta que permanece ao nível do desejo dos Falantes que se disputam o Falo.
Assim, o que mais conta é de saber quem ganhará a guerra dos sexos, dado que o vencedor será o proprietário, não do grande Falo, mas do seu produto genérico, a criança, essencialmente aquela que é portadora de um pequeno falo, ou seja, um pénis.
Tanto os homens como as mulheres interessavam-se sobretudo pelos rapazes: os homens, porque os rapazes seriam os futuros políticos e guerreiros da Cidade (daí a pederastia); as mulheres, porque é essencialmente através dos seus filhos que mais facilmente conquistariam a honra, o poder e a protecção dos homens. [6]
Para lá das mulheres que existem, os Gregos vão também sonhar com a Mulher que não existe. Plutarco (46-125 a. C) conta por exemplo a história de uma cidadã espartana, que depois de um mensageiro lhe ter anunciado a morte de todos os seus filhos numa batalha, responde que a única coisa que ela quer saber é se Esparta saiu vencedora.
Em Roma, Cornélia mostra ter um comportamento diferente em relação aos seus filhos. Depois de Tibério Graco ser assassinado no Capitólio, ela faz tudo para Caio não enveredar pela carreira política. Mas a veia reformista e republicana do cadete fá-lo seguir os passos do irmão. Entra no Senado e, por lapso (durante uma eleição levanta a mão à cabeça e este gesto é interpretado como se quisesse a coroa), é também assassinado.
No meio de tanto barulho e furor as opiniões divergem. Será possível encontrar uma paz para a guerra dos sexos, começar eventualmente um diálogo entre homens e mulheres?
Ainda que o teatro apresente problemas e não respostas, Sófocles tentará convencer Atenas de que não é o diálogo, ou a histeria dionisíaca, mas o silêncio que seria a melhor solução. E acrescenta que silêncio é uma jóia que assenta bem nas mulheres.
Sócrates encontrou outra saída. Como a sua mulher, a irascível megera[7] Xantipa, não se calava, deixou-a a gritar sozinha em casa e foi para a rua ter com os rapazes. Como ele mesmo disse, ou um homem é feliz, ou torna-se filósofo.
O que permaneceu foi a ideia que era preferível que alguém se cale quando há desencontro e desentendimento. Esta ideia ficará gravada no provérbio “o silêncio é de oiro”. [8]
Mas mesmo quando se calam ou deixam de falar uns com os outros, homens e mulheres não se compreendem. Não há nada a fazer, existe um obstáculo intransponível à sua relação: o Falo.
É o obstáculo fálico que mais contribui para o trauma e o mal-entendido, a disputa e a maledicência, o feminismo e a misoginia, ao ponto de Eurípedes (480-406 a C) vir a dizer que “aquele que cessa um único dia de injuriar as mulheres é um idiota”.
O grande problema para os Gregos – como para muitos outros homens – é que a Coisa fala. As mulheres falam e, por mais que a sua fala seja censurada, acaba sempre por se fazer ouvir aqui e ali.
Por vezes é um novo género de homens, os amigos das mulheres, que tomam a palavra no seu lugar. No século XVIII, o enciclopedista Diderot tentará chegar ao leito das senhoras com a mesma prontidão com que pretende levantar a censura da fala destas na fábula dos bijoux indiscrets (1772).
Não só as mulheres falam, como não deixam de se queixar da sua condição, numa sociedade em que proeminência dos homens levou muitas vezes à maior violência contra elas.
Na Lisistrata, Aristófanes conta que esta queixa das mulheres podia ir muito longe, transformar-se em greve do sexo, arma poderosíssima, que fazia pairar a ameaça de retirar aos homens o prazer heterossexual, e sobretudo a possibilidade deles roubarem os filhos às mulheres para os educar para a política e a guerra.
Resumindo, o Falo prevaleceu na cultura em razão: 1 – Da ignorância do processo biológico da fecundação; 2 – Da visibilidade do pénis em erecção (quanto maior, mais visível) e da sedução sexual que o órgão erecto induz nos homens e nas mulheres; 3 – Do poder político decorrente da posse dos rapazes.
A questão que queria colocar agora é a de saber se as descobertas decisivas que foram feitas no campo da Biologia destruíram a ignorância e a ilusão atreladas ao Falo?
Lacan colocou esta questão no Seminário XX, ao mesmo tempo que questionou se não existia um Para além do Falo, o que serviria às mil maravilhas ao MLF[9].
Este para além do Falo teve também a sua existência mítico-religiosa, teatral e présocratica. Por exemplo, aparece no “Ilimitado” de Anaximadro, o princípio móvel que estaria na origem do Cosmo. Mas acontece precisamente que o “a-peiron” se desloca numa espécie de fuga metonímica, sem conseguir condensar-se em nenhum lado, por exemplo, em qualquer significação ou figura da grande e primitiva Deusa Mãe. Assim é melhor ler este Sem-limite como mais um dos nomes míticos do Gozo da mulher.
O Ilimitado está igualmente presente no mito das Danaides, tema de uma comédia perdida de Aristófanes. Das cinquenta irmãs, apenas Hipermenestra preferiu o esposo Linceu; as quarenta e nove restantes mataram os respectivos maridos e serão condenadas por Zeus a encher um tonel sem fundo desde que chegam ao Tártaro, no extremo do Inferno. Desde então que o “tonel das Danaides” passou a significar o esforço infindável, que não serve para nada como o Gozo.
É uma vez mais A mulher que não existe que deu lugar à lenda das Amazonas, guerreiras “matadoras de homens”, que não tinham a mínima necessidade destes para as proteger.
As Amazonas aparecem também no mito de Jasão e dos Argonautas, estando de algum modo associadas a Medeia, aquela que foi capaz de matar os seus próprios filhos, não num acesso de loucura, mas num acto de fina e premeditada vingança contra o marido infiel (cf. a tragédia de Euripedes).
Uma tal infidelidade não parece ser o que preocupa as amantes da ilha de Lesbos. Safo, considerada a “décima musa”, escreveu poemas de amor que incendeiam as entranhas sem os homens e o seu atributo fálico.
É toda a questão da homossexualidade feminina que se convoca também aqui, inclusive a de saber se, pelo menos uma das parceiras do amor lésbico faz ou não de homem, tenta ou não incarnar o Falo?
E então a Biologia? Será que esta trouxe realmente algum conhecimento capaz de destruir a velha crença no Falo?
Juntamente com algumas reivindicações sociais, a genética molecular veio complicar ainda mais o problema. Graças a ela, há quem afirme agora que não existem apenas dois sexos, homens e mulheres, mas também hermafroditas e pseudo-hermafroditas, homossexuais, transgéneros, transexuais, transformistas, etc.
Podia-se pensar que a questão ficaria resolvida com um exame visual dos genitais externos (pénis e vulva) e a análise do ADN do indivíduo, para ver se no último dos 23 pares de cromossomas habitualmente presentes nas células humanas está o Y. Geralmente, o 23.º par dos cromossomas sexuais é composto por XY nos homens e por XX nas mulheres.
Mas mesmo que sejam raras, existem situações de intersexo, pessoas com características masculinas e femininas. Por exemplo, mulheres com “pénis” (ponho a palavra entres aspas). Esta anomalia pode acontecer numa hiperplasia congénita da glândula supra-renal; temos então mulheres sem cromossoma Y, com dois X, sem genes masculinos, sem testículos, sem testosterona e com ovários; produzem hormonas femininas, mas a sua glândula supra-renal hiperdesenvolvida segrega mais hormonas com uma acção masculinizante; estas hormonas podem fazer com que o clítoris se desenvolva e passe a ser uma espécie de “pénis”, e os grandes lábios vaginais tenham mais o aspecto do escroto. Em caso de tumores, pode haver também um aumento da produção de androgénios.
Isto para dizer que ser homem ou mulher pode ser encarado do ponto de vista genético, hormonal, genital, sócio-cultural, jurídico, psíquico, etc. Mas o que me interessa especialmente neste Seminário é aquilo de que não fala a Biologia, a Psicologia e a Sociologia, nomeadamente o inconsciente e a pulsão.
O Além do Falo também colocou alguns problemas aos psicanalistas. O que se disse do assunto, sobretudo do lado das mulheres que se tornaram analistas, foram sobretudo “conneries”, segundo a expressão de Lacan. Por esta razão, ele procurou abordar o problema de modo menos “con”, o lógico, apostando na escrita das fórmulas da sexuação, daquilo que, ao nível do significante e do gozo, faz com que cada ser que fala (“parlêtre”) se alinhe do lado homem ou do lado mulher: ____________________________________________________ [1] Pandora era a filha primogénita de Zeus. Aos 9 anos de idade recebeu como presente do seu pai o colar usado pelo titã Prometeu, colar que lhe foi retirado depois deste ter roubado aos céus e entregue aos homens o segredo do fogo. Pandora arranjou uma caixa para pôr o seu colar, a mesma em que guardava as lembranças de seu primeiro namorado, Narciso. A caixa podia guardar bens de todo o tipo, com excepção de bens materiais. Como o colar era um destes, a caixa auto-destruiu-se e deixou sair todos os males. Pandora chorou dias a fio sem parar. Sentia-se cada vez mais triste. Tentou então destruir a caixa enfeitiçada, mas não conseguiu. Aos 36 anos suicidou-se, não aguentando viver mais de 27 anos com aquela maldição. [3] Freud lembra que a oposição sexual mais vincada na Antiguidade não é entre homem e mulher, mas entre “activo” e “passivo”. Na Grécia, a sexualidade nobre passava-se entre “erastes” (o desejante, o amante adulto) e “eromenos” (o jovem desejado ou amado). Depois da barba crescer no “adolescente”, a relação pederastica/pedagógico/política era, por norma, bruscamente interrompida para dar lugar ao casamento. [4] Esta prevalência não existe só no Ocidente. Ainda hoje podemos ver na Coreia do Sul um verdadeiro Mosteiro fálico (cf. O Parque erótico: http://curiosidadesnanet.wordpress.com/2008/11/05/parque-erotico-na-coreia-do-sul/) [5] Apesar da Comédia grega apresentar a política pelo avesso (por exemplo na Assembleia das mulheres), Aristóteles sugere que a origem escondida da Comédia está no Ditirambo e cortejo fálico em honra de Dionísio. Ora, no final do ritual dionisíaco – tal como o encontramos representado nos frescos da Vila dos Mistérios em Pompeia –, o véu é levantado sem que os fiéis consigam ver o núcleo de todas as esperanças que era o Falo. O facto indica que a falta (do Falo) era o verdadeiro princípio do desejo dos falantes; isto que corresponde à proveniência de Eros, que, no Banquete de Platão, é filho de Pénia (a Falta, Indigência ou Carência) e de Poros (Expediente). A Comédia gira também à volta da falta do Falo. Por exemplo, na Lisistrata de Aristófanes a guerra dos sexos segue o caminho da renúncia à "piça". Nas Temosforas (séc. V a C), Aristófanes acrescentará que, para o homem, “não há nada de pior no mundo que uma mulher, a não ser que se trate de uma outra mulher”. [6] Isto do ponto de vista social, porque do ponto de vista inconsciente, Freud sugere que as mulheres dão de mamar e cuidam da saúde e da higiene dos seus meninos para manter vivo o fantasma do pai edipiano que lhes daria um filho. [7] Megera é uma das três Erínias (Fúrias, em Roma), filhas de Gaia e Urano. Megera personifica o rancor, a inveja, a cobiça e o ciúme. Castiga principalmente os delitos contra o matrimónio, em especial a infidelidade. É a Erínia que persegue com o maior rancor, fazendo a vítima fugir eternamente, gritando-lhe aos ouvidos as suas faltas. [8] Na opinião da escritora Mary Wilson Little, “o silêncio é a única coisa de oiro que as mulheres detestam” [9] Teresa Brennan publicou posteriormente um livro com este título, na editora brasileira Rosa dos Tempos. * A experiência ensina-nos que o sujeito ($) que fala evoca por vezes a excepção feminina, o facto das mulheres não se definirem exclusivamente pela função fálica. Ou seja, nem tudo nelas (“pas-toutes”) é função do Falo (ºx.Fx)
A angústia que os homens têm de ficarem impotentes indica que, ter ou não ter o Falo os afecta a todos em particular. Do Outro lado encontra-se o que se passa com quem não define inteiramente o seu ser em função do Falo, caso da maioria das mulheres.
Elas sabem muito bem que nada lhes falta anatomicamente, logo que é muito difícil simbolizar – mesmo com tudo o que se disse sobre o clítoris – o Falo a partir do seu corpo.
Assim, as mulheres não entram propriamente na dialéctica do ter ou não ter o Falo. O que pode acontecer é que alguma queira sê-lo. Para isso é necessário que ela faça de conta que é o Falo (cf. a “mascarada” de Joan Rivière).
Uma mulher pode também desejar ser o Falo sendo a mais bela e inteligente do mundo, a Miss Universo, A Mulher que todos os homens quereriam e todas as mulheres invejariam. Neste caso, a grande questão que se coloca é a da Feminilidade.
O que a psicanálise ensina é que a mulher que mais conta no inconsciente dos dois sexos é a mãe, e que quanto mais há de mãe, menos mulher existe. Ora, se uma mulher não se esgota na significação fálica, também não se esgota na maternidade.
Se o Eterno Feminino existisse, poderia ser um equivalente ontológico do Falo. Mas não existe.
Assim, o que se impõe do lado das mulheres (no plural) é % (ð) Mulher que não existe, a mulher que nenhuma delas é em carne e osso. Todas são desde logo remetidas para o símbolo que designa esta ausência, o Significante do Outro barrado: S(%).
É em virtude deste dado estrutural – A mulher que não existe e a mãe que é objecto da proibição do incesto – que uma mulher ocupa geralmente o lugar do objecto (a), da perda que está na origem ou é causa do desejo do Homem (“Homo” e “vir”), e do fantasma que o suporta, $&a. Nas fórmulas da sexuação: $ ¯ a.
Este objecto parece ser o único termo positivo ao qual uma mulher se pode identificar. Mas como se trata de um “plus-de-jouir”, também não escapa à falta.
O valor acrescentado (“plus”) do objecto (a) só aparece depois da castração (“il n´y a plus”). É esta combinação que se desvela no fetiche que o objecto normalmente vela.
Este dado faz com que as mulheres tendam a devir “fetiches” para o Homem. Sobretudo na sua aspiração ao Belo. A moda, a dietética, a cosmética e as cirurgias plásticas têm contribuído bastante para o horror que a beleza pura vela.
Penso que ficou claro que é como um gozo suplementar ou um gozo que sobra da proibição do incesto e do interdito linguístico que uma mulher se torna objecto do fantasma do falante. Mas como o objecto (a) não suprime a divisão do sujeito ($), cada mulher acaba por se afirmar como sintoma para além da mascarada ou do “semblant”.
A cada sujeito o seu sintoma. Ora, se, como falados e falantes, homens e mulheres são sujeitos do significante, como sintomas, diria que convinha primeiro que se façam analisar. * O que assemelha homens e mulheres é sobretudo a representação significante. Digamos que é esta que os remete para a Fala, o Falo e a Falta.
Valia a pena aqui instruirmo-nos do que se passava já com o Oráculo que vaticinava em Delfos, pois a metonímia da sua fala não procurava dar sentido aos pedidos que lhe faziam os crentes, limitando-se a apontar para o insarável mal-estar.
É este mesmo colocar o dedo na ferida que fará ainda mais tarde o ponteiro fálico do dedo levantado do São João[1] de Leonardo da Vinci. _________________________________________________ [1] É celebre a história de São João (dito “Baptista”, por baptizar aqueles que esperavam o Messias) com Salomé, mulher cuja luxúria foi considerada «um abismo», e a perversidade “um oceano”. Depois de Eva, Salomé foi a mulher mais malvada da história judaico-cristã. Há poucas figuras femininas no Antigo Testamento que tenham merecido da parte de escritores, autores de teatro, gravadores, pintores e compositores musicais, a atenção que mereceu a jovem, que, graças à sua sedutora dança, conseguiu de Herodes a cabeça de João Baptista, o Santo acusava a mãe de Salomé de adultério e que não se deixou enfeitiçar pela beleza da filha.
*
As fórmulas da sexuação não vão ser a última palavra do ensino de Lacan. Elas darão posteriormente lugar ao “sintoma ele” e ao “sintoma ela”.[1] Escrevamos do seguinte modo o que se passa de cada um dos lados:
“Homem” “Mulher” F ®ð¯S(%) åele åela
Efectivamente é com os seus sintomas que os homens e as mulheres falam, sofrem e tentam ir além dos dissabores da relação sexual, procurando aí um complemento que não existe fora do quod matrem, do modo materno de cuidar um do outro.
A questão que queria colocar agora é a do terceiro termo ou termo médio que podia inscrever ou até escrever a relação sexual que não se perfaz.
Como vimos, a civilização antiga elegeu como termo médio o Falo. Esta prevalência do Falo conduziu à guerra dos sexos. Pensou-se, então, que a paz só chegaria com a castração. Alguns preferem dizer com a idade.
Mas há também quem afirme – como Paolo Mantegazza, autor que Freud conhecia – que o dinheiro funciona melhor nesta mediação, pois é “um amante sem sexo, mas de que todos os homens e mulheres se enamoram”:
H M F castração S(%) åele dinheiro åela
Porém, aquilo que há bastante tempo costuma ter mais votos nesta eleição para a União dos sexos é o amor.
Foi isso que expliquei há alguns anos numa conferência das Jornadas do CEP sobre “o terceiro sexo” (cf. Ditos II). Afirmei nessa palestra – na qual enunciei pela primeira vez o meu conceito do “infornicável” – que, para além do Falo (que o Pai divino e edipiano deteriam) e do objecto a (ao qual o dinheiro que não falta pode vir a corresponder), é o amor que melhor ocupou até aqui o lugar do termo médio:
H M F castração S(%) åele dinheiro åela Amor
Freud afirmou um dia que apenas os idiotas não sabem que o amor é aquilo que há de mais importante na existência. Ele não disse tudo sobre o assunto. Dedicou-se sobretudo a analisar o “amor de transferência”, que, convém não esquecer, é também um amor pago e destinado à castração.
Freud afirmou que o amor de transferência não é só um amor genuíno, é também a chave para entender tudo o que se chamou até lá “amor”: o amor de si (Narciso), o amor parricida e incestuoso (Édipo), o amor louco (Mania), o amor jogo (Ludos), o amor solidário (Fília), o amor amigo (Storge), o amor altruísta ou caritativo (Ágape), o amor realista ou prático (Pragma), o amor físico (Pornos) e o mais perfeito de todos, o amor ideal, que une os corpos, as almas e os intelectos sem os amputar (Eros).
Mas o que queria sublinhar é que todos estes amores estão destinados a dissolver-se no final da análise juntamente com o amor de transferência. Esta é a razão pela qual sugeri, na referida palestra, que para saber o que era ainda o amor tinha de se inventar um novo.
Esta novidade já não teria a ver com o Ideal condicionado pelo incondicionado da Demanda de amor, mas estaria implicado na relação intersintomática.
Parecem ser as mulheres que mais têm sentido a necessidade deste outro amor. Em todo o caso é da falta de um amor real que elas se queixam desde sempre. Esta queixa está também patente no que dizem as mulheres da Lisistrata de Aristófanes.
Esta Comédia fala das espartanas. Elas queixam-se dos homens porque eles não lhe dão amor, não se ocupam delas. Preferem a amizade pederasta. É com os rapazes e os outros homens que fazem exercício físico, discutem política, se prepararem para a luta e se lançam na interminável guerra.[2]
[1] “…vocês, todos quantos aí estão, tem cada um, como sintoma, a sua cada uma. Há um sintoma ele e um sintoma ela. É tudo o que resta do que se chama a relação sexual. A relação sexual é uma relação intersintomatica” (Lacan, “Transmission” in Lettres de l'Ecole n°25, Bulletin intérieur de l'École freudienne de Paris, volume II, Junho 1979). [2] O “Make love not war” dos Hippies que se ouviu nos USA durante as manifestações contra a guerra do Vitimam não anda muito longe desta antiga reivindicação das mulheres.
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O que disseram alguns psicanalistas sobre as mulheres
Começo por citar uma frase, escrita por Alexandre Dumas: “As mulheres são surpreendentes: ou não pensam em nada ou estão a pensar noutra coisa.”[1] Significa isto que os homens, como se diz por vezes, diferentemente das mulheres, pensam…na mesma coisa? Algumas mulheres até costumam sugerir que os homens pensam todos na mesma coisa e só pensam nisso. Será um disparate? DISPARATES Ao ler esta frase de Alexandre Dumas, dei comigo a perguntar: e se aquilo que se tem dito em geral sobre as mulheres não fosse mais do que disparate? Um chorrilho ou uma série de asneiras, mesmo se, como dizia a jovem Agnès Michaux, em 1993, no prefácio que escreveu para o Dicionário de Misoginia, nem sempre muito longe da verdade.[2] Dizer disparates, asneiras ou tolices é o que todos procuramos evitar. Segundo Lacan (Seminário Encore), os discursos tradicionais, do mestre ou da universidade por exemplo, visariam de um modo geral furtar-se ou desembaraçar-se da asneira, do disparate (bêtise) ou, pelo menos, reduzi-la à menor asneira possível, à asneira sublime. Pelo contrário, o discurso analítico, em vez de furtar-se, outorgaria um estatuto à asneira. A asneira teria, por assim dizer, livre-trânsito na psicanálise. Na verdade, desde Freud, esta baseia-se na permissão, concedida ao analisando, de dizer asneiras, disparates, tolices…sem medo ou receio das consequências. E ainda por cima, pagando por isso. A asneira por sua conta e risco. Como diria o psicanalista brasileiro Jorge Forbes, não há aqui nada de bom senso. É pura bêtise. Ou não será? Em princípio, uma tal permissão diria respeito ao analisando e não ao analista. Não convém que o analista fale muito para não dizer muitas asneiras. Na verdade, quando se começa a falar, é raro não sair asneira. Faz parte do sujeito falado e falante dizer asneiras. Talvez por isso o psicanalista, que não funciona no dispositivo analítico enquanto sujeito ($), mas enquanto causa de desejo ("), esteja calado a maior parte do tempo. É natural, por conseguinte, que eu me sinta algo aliviado, apesar de um certo desconforto que provocou em mim o repto que me foi lançado para vir aqui falar deste tema: o que disseram os psicanalistas sobre as mulheres. Com efeito, visto que não estou aqui na posição do psicanalista, tenho permissão de dizer asneiras. Mas será que o facto de alguém se apresentar como psicanalista o livra de dizer asneiras, nomeadamente sobre as mulheres? Parece-me que Freud é uma boa ilustração, après-coup, de que se pode ser psicanalista sem com isso estar completamente isento de dizer asneiras sobre as mulheres. Justiça lhe seja feita: ele reconhece algumas dessas asneiras; outras, nem por isso. Não seria melhor então, nesta matéria, dar a palavra às mulheres propriamente ditas? De certa forma, sim. Pode ser mais esclarecedor, para o caso, escutar o que dizem as mulheres acerca de si próprias, do que ouvir ou ler o que disseram outros sobre elas. E no caso de os “outros” em questão serem mulheres…psicanalistas? Será que tal as impede de dizerem asneiras sobre as mulheres? Vi recentemente um filme que me levou ainda a colocar a questão sob um novo ângulo. O filme chama-se, em português, “Deixa chover” e tem como título original, em francês, “Parlez-moi de la pluie!”. Cheguei a pensar, a certa altura, se esta não seria uma boa forma de falar das mulheres. Quando se trata de falar das mulheres, parlez-moi de la pluie… O que acham? Há certamente chuva neste filme, mas há sobretudo um conjunto de peripécias muito engraçadas (confesso que chorei de tanto rir) que resultam da tentativa de realizar um documentário em torno de uma mulher politicamente empenhada na causa feminista. Nem só as mulheres se empenham na causa feminista, como sabemos, mas neste caso trata-se efectivamente de uma mulher feminista. Simplificando, poderíamos dizer que uma feminista é alguém que se propõe falar em nome das mulheres. Para falar em nome das mulheres é suposto fazer-se uma ideia acerca do que elas querem. Como sabemos, foi esta também a pergunta de Freud: o que quer a mulher (Was Will Das Weib)? Neste aspecto, parece não haver nada de muito novo debaixo do sol, como diria o Eclesiastes, visto que a pergunta continua a ecoar entre nós. Relembro apenas, de passagem, o título de um livro de Susie Orbach e Luise Eichenbaum (O Que Querem as Mulheres – What Do Women Want) e um ciclo de cinema que decorreu há poucos anos no Instituto Franco-Português subordinado ao tema: O Que Querem Elas? Um dos problemas que se levantam neste tipo de perguntas é que elas tendem a generalizar, isto é, a reduzir a singularidade ao género, segundo o termo habitualmente utilizado, sobretudo no mundo anglo-saxónico (gender). Ou seja: tende a perguntar-se o que querem todas as mulheres ou o que quer a mulher como toda. O engraçado do filme que tive oportunidade de ver, num sábado chuvoso, é ele que vai provocando uma reviravolta, através de um conjunto de pequenos incidentes, no modo de formular a pergunta: como se a protagonista do filme, a mulher feminista em questão, ao empenhar-se na causa das mulheres em geral se tivesse esquecido da sua própria causa, do que ela própria queria no meio disso tudo. Desse ponto de vista, pretender falar por todas as mulheres pode ser igualmente um disparate, uma asneira, mesmo se provindo de uma mulher. Pois não é certo que todas as mulheres queiram a mesma coisa nem que uma mulher em particular queira sempre ou inteiramente aquilo que quer num dado momento. Deixo de lado a questão de saber até que ponto o mesmo poderia ser dito dos homens. Não é esse o desafio que hoje me proponho. Talvez alguma mulher presente na sala queira abordar o tema por esse lado. Seria interessante. E quem sabe, menos disparatado… Será, então, que estamos condenados, neste particular - sejamos analisandos, analistas ou feministas -, a dizer apenas disparates (bêtises)? Será possível, neste domínio, ir além do disparate? Como sair do disparate? Ao falar, pela primeira vez, da mulher como não-toda, será que Lacan nos permite de alguma forma sair do disparate ou nem por isso? Lacan dizia na lição inaugural do Seminário XX, Encore, que ser sério é estabelecer a série. Na série de disparates que disseram ou arriscam dizer uns e outros sempre que pretendem falar em nome do todo, será Lacan mais ou menos sério? UMA TEORIA DE TUDO? A bem dizer, a sedução do todo é realmente uma coisa séria. Existe mesmo uma pretensa “teoria de tudo” (theory of everything) numa área científica tão prestigiada como é a Física Teórica. Melhor dizendo: o que existe de facto não é uma Teoria de Tudo, mas a aspiração, a busca continuada, desde há algumas décadas, de semelhante teoria. Em que consiste essa busca? Um dos mais fervorosos entusiastas da “teoria de tudo”, até há alguns anos, era Stephen Hawking, o reconhecido físico teórico inglês. Aparentemente, esta teoria tinha um objectivo claro e cientificamente bem delimitado a nível da física teórica: tratava-se de conciliar numa única e nova “teoria quântica da gravidade” as duas teorias fundamentais que descrevem parcialmente o universo: a teoria da relatividade geral (Einstein) e a mecânica quântica (Eisenberg, Dirac). Não é completamente certo que esteja para breve a descoberta de semelhante teoria. A mais recente candidata a uma teoria final - a teoria das cordas - parece gerar novos paradoxos insolúveis, mostrando-se “imune tanto à prova como à refutação”.[3] Aliás, este “paradoxo da não verificabilidade” da teoria das cordas, levou mesmo alguns cientistas a questionar a pertinência do famoso critério de demarcação popperiano entre o que é e não é ciência, que exigia por exemplo que uma teoria científica tinha de ser refutável (residindo aí a desqualificação da psicanálise, por não obedecer de forma estrita a semelhante critério). Mas - como perguntava Jean Pierre Luminet - não é o critério popperiano da falsificabilidade igualmente uma teoria? Nesse caso, não há razão para que se tenha de aceitar como definitiva e indiscutível.[4] Além disso, o próprio Stephen Hawking parece ter, mais recentemente, desacreditado não só de que esteja para breve a descoberta de uma teoria final, como até mesmo da possibilidade de que possa alguma vez existir semelhante teoria. Partindo dos teoremas da incompletude de Gödel, ele defendeu que mesmo a mais sofisticada teoria da física será sempre incompleta, não podendo haver uma teoria final que possa ser formulada com um número finito de princípios.[5] Se vai ou não ser possível uma teoria final, unificada, no estrito domínio da física, o tempo e os avanços desta ciência se encarregarão de mostrar. É uma questão científica não referendável, como se diz agora a propósito do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Quanto a nós, interessa-nos sobretudo perguntar: não revela este exemplo, extensível a outros domínios da ciência, um certo deslize ou salto metafísico que convém apreender, sob pena de cairmos em confusões de natureza linguística ou conceptual, como diria o filósofo Wittgenstein? Com efeito, como entender a palavra “tudo” (everything) quando se diz, por exemplo, que “se existir uma teoria de tudo, tudo o que existe no universo deverá obedecer aos seus princípios”?[6] Qual é, no fundo, o desejo que habita o cientista quando sonha, digamos assim, com semelhante teoria? Se olharmos para a história da ciência, deixando de lado a “psicologia do cientista”, a resposta parece clara: a ciência tem sido a progressiva compreensão de que os fenómenos não ocorrem de forma arbitrária, mas segundo uma certa ordem.[7] Desde que alguém reparou pela primeira vez na existência de regularidades, de padrões na natureza, o desejo de compreender e explicar a ordem subjacente a tais fenómenos não parou de crescer. Primeiro, através dos mitos e religiões; depois, com recurso à racionalidade filosófica e, finalmente, à metodologia científica, onde pontuam como sabemos a matemática e a experimentação. A formulação científica das regularidades, padrões e ordem subjacente à natureza exprime-se por meio de leis. Aspira-se a uma teoria final, unificada e completa, que explique o universo e tudo o que nele acontece.[8] Trata-se, de acordo com o chamado princípio da simplicidade, de reduzir o complexo ao simples, conseguindo explicar o maior número de fenómenos (ou todos, no limite), recorrendo ao menor números de princípios.[9] Até que ponto este “princípio da simplicidade” se pode converter, inadvertidamente, em simplificação, ou o processo de redução do complexo ao simples em reducionismo, é o que merece ser analisado. Para isso, vejamos apenas alguns exemplos. Stephen Hawking refere, num dos capítulos do seu livro, Breve História do Tempo, a teoria determinista do Marquês de Laplace, no início do século XIX. Este cientista francês sugeriu que deveria existir um conjunto de leis científicas que nos permitiriam predizer tudo o que acontece no universo desde que conhecêssemos, num dado momento, o seu estado completo. Não se contentando com isto, ele foi ainda mais longe, ao admitir que haveria leis que governam tudo, incluindo o comportamento humano. Stephen Hawking refere este exemplo no capítulo dedicado ao Princípio de Incerteza, formulado por Heisenberg. Este princípio marca o fim do “sonho de Laplace”, ao mostrar que é impossível uma teoria científica, um modelo do universo completamente determinista.[10] Mas será, então, que o “sonho de uma teoria final” morreu ali?[11] Denis Noble, um eminente biólogo inglês, no início de uma conferência ocorrida em Paris, recordava o “sonho” de Francis Crick, um dos nomes sonantes da revolução molecular da Biologia. Crick proclamara que a Biologia Molecular conseguiria elucidar todos os grandes segredos da vida, da consciência e da subjectividade. As alegrias e as tristezas, as recordações e as ambições, a percepção da identidade pessoal e do livre arbítrio não seria mais, segundo ele, do que o funcionamento de um vasto conjunto de células nervosas e das suas moléculas associadas.[12] Segundo Noble, esta pretensão explicativa resultaria de um reducionismo (que pretende explicar o que se passa nos níveis superiores, e finalmente em todo o organismo, com base nos níveis inferiores) e uma ideologia “do todo o genético”.[13] Não será o “todo neuronal” a versão mais recente, ao nível das neurociências, de uma tal pretensão? Com efeito, os neurobiólogos presumem que todas as nossas funções mentais se baseiam em processos neuronais.[14] Em todos estes casos, salvaguardando naturalmente as devidas diferenças, parece que um mesmo desejo está em marcha: vai-se do padrão à unificação e desta resvala-se para o todo. UMA MULHER Poderão as mulheres ensinar-nos algo, que não seja puro disparate, sobre esta aspiração do cientista ao todo? Kitty Ferguson, uma mulher que um dia abandonou a carreira musical para se dedicar essencialmente à divulgação científica, escreveu há alguns anos um livro sobre a vida e a investigação de Stephen Hawking. A certa altura, fazendo por assim dizer a psicologia do cientista enquanto jovem, melhor dizendo, criança, ela escreveu o seguinte: “Na altura em que Stephen tinha oito ou nove anos, pensava seriamente em tornar-se cientista quando crescesse. Parecia-lhe que na ciência poderia encontrar a verdade, não apenas a respeito de relógios e rádios, mas também em relação a tudo o que o rodeava.”[15] A “teoria de tudo” apresenta-se aqui como a desmesura de um sonho infantil. Mas talvez pudéssemos ir um pouco além desta “psicologia do cientista” - pois tal desmesura se aplicaria igualmente, e por maioria de razão, às grandes filosofias do passado, a culminar na apoteose hegeliana – para interrogar antes, como diria Freud, a “psicologia amorosa”. E quem nos pode ajudar, aqui, senão uma mulher, Jane Hawking, precisamente aquela que foi a mulher de Stephen Hawking até 1990? Pouco depois do vigésimo quinto aniversário do seu casamento, os Hawking separaram-se. Como encarava Jane o grande entusiasmo do marido pela teoria de tudo? Em 1989, um ano antes da separação, Jane Hawking, pressagiando o pior, num programa da BBC, curiosamente intitulado “Master of the Universe: Stephen Hawking”, dizia o seguinte: “Comecei com grande optimismo. Stephen foi então infectado por esse optimismo. A sua determinação ultrapassou em muito a minha. Não consigo acompanhá-lo. Penso realmente que ele procura compensar a sua doença, fazendo absolutamente tudo o que lhe vem à cabeça.”[16] Para quem sofria, como era o caso de Stephen Hawking, de uma doença rara (esclerose amiotrófica lateral) que vai desintegrando progressivamente as células nervosas da espinal medula e do cérebro que regulam a actividade dos neurónios motores, deixando embora intactas as funções intelectuais, a declaração da sua esposa tinha algo de irónico, para não dizer mesmo que rondava o cinismo. Não era a primeira vez, aliás, que se manifestava a desproporção entre o entusiasmo de uma cabeça brilhante, como era o caso de Stephen Hawking, e o lamento ou o queixume da sua mulher. Um ano antes, referindo-se ao marido, Jane Hawing confessara: “Há um aspecto do seu pensamento que considero cada vez mais preocupante e com que é difícil viver. É o sentimento de que, como tudo pode ser reduzido a uma fórmula matemática, racional, essa deve ser a verdade.”[17] A este respeito, Kitty Ferguson acrescenta: “Parecia-lhe que não havia lugar no espírito do marido para a possibilidade da verdade revelada pela matemática poder não ser toda a verdade.”[18] Ou seja, enquanto o marido se entusiasmava cada vez mais pela possibilidade de vir uma dia a escrever, a reduzir toda a verdade do universo à fórmula, à equação matemática, Jane Hawking ia dizendo, por sua vez, que há algo que resiste à escrita, que é impossível de escrever, que a verdade não é toda, como diria Lacan. Que isso seja dito por uma mulher, não deixa de ser elucidativo. De tal forma que poderíamos dizer: uma mulher faz objecção ao todo, à teoria de tudo (S %). É talvez por isso que a resposta à questão o que querem as mulheres (como um todo) esteja fadada a não cessar de não se escrever; ou então, pelo contrário, condenada a escrever-se unicamente sob a forma da asneira, do disparate (bêtise). Haverá jeito de sair disto? UM PSICANALISTA Em que medida um psicanalista como Freud poderá ajudar-nos? Haverá algo de parecido com uma “teoria de tudo”na psicanálise freudiana, mesmo se Freud não cessa de advertir-nos contra semelhantes “totalizações”? Até certo ponto, eu tenderia a dizer que sim. Tal como acontece de uma forma geral na ciência, também a psicanálise começou, segundo Freud, pela descoberta progressiva de que os acontecimentos (sonhos, sintomas), sob as vicissitudes ou detalhes individuais e variáveis que apresentam, obedeceriam a uma certa ordem, a regularidades ou padrões, que podem ser comuns a todo um vasto conjunto de sujeitos ou, limite, a todos os homens. Mesmo se Freud mostra como o fundo uniforme, típico, de alguns sonhos ou sintomas tem de ser modulado segundo condições individuais, é igualmente verdade que, em última análise, se visa a regularidade, o padrão, a estrutura.[19] Eis porque Freud, na ausência de outros instrumentos conceptuais, recorre ao mito (Édipo, Totem e Tabu) como forma de enquadrar semelhantes estruturas. Por outro lado, no domínio sexual, a questão é porventura ainda mais pertinente, visto que, segundo Freud, só há uma libido, para todos, quer sejam homens ou mulheres. O quer isto dizer? Quando Lacan, nos anos setenta, afirmou que a mulher não existe (La femme n’existe pas), para muitos isso não passava de um mero disparate. No entanto, deixando para já de lado o contexto propriamente lacaniano em que tal afirmação é proferida, se pensarmos em Freud ela faz algum sentido. Com efeito, a princípio, na teoria da Freud, a mulher não existe; quer dizer, falta – tanto no rapaz como na menina – uma representação psíquica, um símbolo ou um significante do feminino como tal. Isso significa que há um só órgão e uma só libido para ambos os sexos. Não há uma marca específica do Outro sexo. Freud diz isto, por exemplo, num texto de 1923: A Organização Genital Infantil.[20] Esta difere da organização genital do adulto pelo facto de a criança admitir apenas um órgão genital, o masculino, para ambos os sexos. É por isso que Freud chama a esta fase do desenvolvimento da libido, fálica, não existindo, segundo ele, uma primazia genital, mas antes uma primazia do falo. Quanto ao feminino, na sua especificidade, mantém-se por conseguinte na sombra, tal como um “continente negro”, como dirá Freud mais tarde. Freud não deixa, no entanto, de colocar uma objecção a esta forma de ver as coisas, designadamente em dois textos: A Dissolução do Complexo de Édipo (1924) e Algumas Consequências Psíquicas da Diferença Anatómica entre os Sexos (1925).[21] Em ambos os textos, Freud acaba por alertar para a eventual parcialidade do ponto de vista até aí adoptado, o qual dizia unicamente respeito ao rapaz, carecendo ainda a trajectória do desenvolvimento sexual da menina de uma abordagem distinta. Esta é uma verdadeira placa giratória da abordagem freudiana da sexualidade em geral e da feminina em particular, uma vez que ele se apercebe de que o ponto de vista unissexual adoptado, tem afinal limitações, sendo impossível reduzir o Outro (a diferença sexual) ao Uno. De ora em diante, em particular nessa espécie de tríptico constituído pelos textos Algumas Consequências Psíquicas da Diferença Anatómica entre os Sexos (1925), A Sexualidade Feminina (1931) e a Feminilidade (1933), a questão da diferença marcará, por assim dizer, o tom e o ritmo da reflexão freudiana. Não se trata propriamente, como diz Freud no texto sobre a Feminilidade, de descrever o que é a mulher, mas de investigar como é que da disposição bissexual infantil (que Freud admitira à partida por influência do seu amigo Fliess) se devém mulher.[22] Ou seja: como é que a menina se torna mulher. Mais precisamente, sabendo que tanto para o menino como para a menina o primeiro objecto de amor é a mãe, como é que a menina se desvincula desta, mudando concomitantemente de objecto de amor? Há sem dúvida, segundo Freud, um sem número de factores, contingências (difíceis de prever ou conceptualizar) e vicissitudes por que passa o desenvolvimento da libido. Porém, todos estes factores existem igualmente nas relações do menino com a sua mãe, não sendo, contudo, suficientes para ele se afastar dela. É por isso que Freud se interroga se não existirá um factor mais específico, algo que não apareça no menino ou apareça nele distintamente. O complexo de castração é a resposta de Freud a este intrincado de questões. É evidente que o complexo de castração é vivido por cada um dos sujeitos, seja menino ou menina; no entanto, o que é decisivo para cada um deles não é tanto a percepção de ter ou não ter o órgão peniano, mas o confronto com a castração materna; eis o que convence finalmente o rapaz de que pode perder o seu tão prezado órgão fálico (e as ameaças de castração anteriormente escutadas adquirem assim um peso real), enquanto a menina, reconhecendo a diferença como uma desvantagem, cai vítima, segundo Freud, da inveja do pénis (“também queria ter uma coisita assim”),[23] abandona a primeira fixação à mãe e dirige-se, em princípio, para um novo objecto: o pai. Poderíamos abrir aqui um parêntesis para assinalar esta relativa confusão, em Freud, entre o “falo” e o “pénis”. Na ausência de instrumentos conceptuais apropriados (em particular de natureza linguística, de que Lacan tanto irá servir-se mais tarde), Freud parece condenado a não distinguir adequadamente entre o real do órgão peniano, o imaginário da sua representação e o carácter simbólico, significante, do falo propriamente dito. É por isso que o texto freudiano, parecendo embora mais simples e acessível que o texto lacaniano, por exemplo, está repleto de armadilhas. Esta “confusão” mantém-se ao longo de toda a obra de Freud, de tal modo que ele chega a fazer da “inveja do pénis” a versão feminina da “rocha da castração”, um obstáculo intransponível que arrisca tornar a análise “interminável”.[24] Mas será que as mulheres têm verdadeiramente inveja disso (que a maior parte do tempo embaraça, atrapalha, claudica, não responde como devia…) ou se interessam antes pelo que isso representa ou pode representar, isto é, pelo que nenhum órgão real, efectivo, é capaz de responder? Se elas não o têm, como dirá Lacan mais tarde, elas podem sê-lo, isto é, representar para um homem o que lhe falta, mesmo sendo possuidor do órgão. Voltando a Freud, e no que diz respeito à castração propriamente dita, é preciso destacar uma diferença no modo como cada um deles, o menino e a menina, a enfrentam e lidam com ela. Essa diferença joga-se, pelo menos, a três níveis. Em primeiro lugar, é uma diferença modal: enquanto o menino a teme como uma possibilidade, na menina ela é pressuposta como uma realidade de facto; ou seja, há aqui uma diferença entre algo temido e algo realizado. Daqui deriva igualmente uma diferença temporal: enquanto no menino há um desfasamento entre o instante de ver e o momento de concluir sobre o real significado do que viu (só mais tarde, como diz Freud, é que ele dá sentido e peso real às diversas ameaças de que foi alvo, necessitando, portanto, de um tempo para compreender), na menina, o instante de ver coincide também, em princípio, com o momento de concluir: ela viu e sabe que não tem. Finalmente, é uma diferença de reacção ou comportamento: enquanto o rapaz – devido ao temor da castração – abandona o Complexo de Édipo e identifica-se ao que fora até aí o seu rival (o pai), com a sequente constituição e reforço do Supereu, a menina, sentindo-se prejudicada e acusando a mãe de uma tal desvantagem, abandona o que fora o seu primeiro objecto de amor, bem como a sua primeira zona erógena, e, caindo vítima da inveja do pénis, só então entra verdadeiramente no Édipo. No entanto, longe de ser simples ou linear, este é um devir complexo e que é susceptível de traduzir-se em diversas vicissitudes, sujeitas à contingência e difíceis de prever. Freud assinala, em particular, três caminhos ou saídas possíveis: um conduz à inibição sexual ou à neurose; outro, à transformação do carácter no sentido de um complexo de masculinidade; e outro, por fim, àquilo que Freud chama a via normal da feminilidade. No primeiro, as coisas passam-se mais ou menos assim. A menina que até então vivera a sua sexualidade segundo o modelo masculino, sabendo dar-se prazer por meio da excitação do clítoris e relacionando tal actividade com os seus desejos sexuais, frequentemente activos, orientados em direcção à mãe, graças à descoberta da castração, começa por considerar o facto como um mal que lhe coube individualmente em sorte. Comparando-se ao rapaz, sente-se ferida no seu amor-próprio e renuncia ao gozo da masturbação, recalcando parte das suas tendências sexuais. Após ter acreditado, num primeiro momento, que era a única desprovida de um tal órgão, apercebe-se que os outros seres femininos – e em particular a sua mãe – tiveram um destino semelhante. Ora, visto que o seu amor se endereçava inicialmente a uma mãe fálica (suposta não castrada), estão criadas as condições para que esse primeiro objecto seja desvalorizado aos olhos da menina e, por fim, abandonado. O que acontece com esta primeira saída é que, não só a mãe (enquanto primeiro objecto de amor) e o clítoris (enquanto primeiro objecto de satisfação) são abandonados, como é simultaneamente toda a sexualidade que é afectada. É como se o sujeito feminino, neste momento – e perante a situação – desse para si mesma a seguinte resposta: já que não o tenho, não quero saber mais nada disso (definição lacaniana, na esteira de Freud, do recalcamento). O resultado, segundo Freud, é a inibição sexual e, com ela, a neurose. A segunda via, embora tendo por base o mesmo evento (a castração) traduz-se numa resposta ou reacção subjectiva diferente. A menina recusa a dura realidade, exagera a sua atitude viril, persiste na actividade clitoridiana e procura a sua salvação numa identificação à mãe suposta fálica ou então, em alternativa, ao pai. Isto significa que a menina toma-se por rapaz e age como se o fosse realmente. Uma das consequências extremas deste complexo de masculinidade, como Freud lhe chama, é a homossexualidade manifesta, embora as coisas provavelmente não sejam tão simples e directas assim. Com efeito, se tomarmos como exemplo o escrito que Freud dedicou a um caso de homossexualidade Feminina em 1920 – Psicogénese de um caso de Homossexualidade Feminina – verifica-se que a homossexualidade, em vez de ser um simples prolongamento do complexo de masculinidade infantil, pode resultar antes das decepções por que passa (e de alguma forma tem de passar inevitavelmente) o amor do sujeito feminino pelo pai; são essas decepções que podem fazer com que haja uma regressão ao complexo de masculinidade, com as concomitantes regressões de objecto e de zona erógena. Seja como for, este segundo caso mostra como não há uma saída única, nem talvez definitiva, sendo todas as respostas, de alguma forma, simples paragens provisórios de uma questão que permanece essencialmente em aberto: a questão da feminilidade. Neste caso, a resposta do sujeito poderia formular-se assim: Já que não o tenho, ou mesmo não tendo (o órgão), posso ser (o falo). A jovem homossexual mostra-nos, pelo seu comportamento (de desafio ao pai) o que isto pode querer dizer: é que ela, apesar de não ter, não fica nada a dever aos que têm no que diz respeito a saber o que é o amor (pense-se, por exemplo, na devoção que ela consagra a essa mulher dez anos mais velha, substituto regressivo do amor pela mãe, no entender de Freud). Vejamos, finalmente, como as coisas se passam na terceira via, a saída normal, segundo Freud. O que vai ser decisivo, em todo este processo, é o estabelecimento do que Freud, já num texto de 1924, A Dissolução do Complexo de Édipo, vai chamar equivalência ou comparação simbólica e que se traduz no seguinte: “A renúncia ao pénis não é suportada sem a tentativa de a compensar. A menina passa – seguindo, digamos, uma comparação simbólica – da ideia de pénis à ideia de bebé. O seu Complexo de Édipo culmina no desejo, retido durante muito tempo, de receber do pai, como presente, um menino, de ter um filho dele. (...) O Complexo de Édipo é depois abandonado lentamente porque este desejo não chega jamais a realizar-se.” [25] Já antes, durante a fase fálica, a menina desejara um filho de sua mãe, como o provam, por exemplo as brincadeiras com bonecas. Mas esta actividade lúdica ainda não era verdadeiramente uma manifestação da feminilidade, mas antes uma identificação à mãe com o objectivo de substituir a passividade pela actividade. A boneca era, no fundo, ela mesma, podendo a menina fazer-lhe o mesmo que a sua mãe lhe fazia a ela. É somente quando surge o desejo de pénis que a criança-boneca se torna um filho de seu pai, figurando, desse modo, o fim mais ardentemente desejado. Quando, mais tarde, este desejo infantil se realiza, a mulher enche-se de felicidade. Isto quer dizer, finalmente, que o antigo desejo de um pénis subsiste, mesmo quando a feminilidade normal está bem (ou parece bem) estabelecida. A resposta que é dada, desta vez, poderia ser formulada do seguinte modo: não o tenho, por isso (como expressão de uma equivalência simbólica) quero (ou posso) tê-lo. Como vemos, entramos aqui no domínio da metáfora e do simbólico, ou seja, no registo dos objectos substitutivos e substituíveis. A mulher – de acordo com esta solução freudiana – existe, mas só enquanto desejo materno (é o que Lacan vai traduzir mais tarde, na metáfora paterna). Contrariamente ao dito lacaniano de que a mulher não existe, vemos que para Freud a mulher existe, mas enquanto mãe. Isto é já uma redução do enigma. A solução freudiana consiste numa redução do enigma da feminilidade à solução materna. Será esta uma solução ou um impasse, um disparate de Freud? Porém, ao dizer que “é tudo incompleto e fragmentário”, Freud parece assinalar, pelo contrário, que neste domínio não há lugar para uma “teoria de tudo”. O ERRO DE FREUD (?) Que a mulher não é toda mãe, é hoje uma verdade de facto. Não só porque é cada vez maior o número de mulheres, sobretudo nos países mais desenvolvidos, que optam por não ter filhos, mas também porque, mesmo quando a opção vai no sentido da maternidade, a realização das mulheres parece não se esgotar completamente nessa opção. O filósofo francês Michel Onfray vai ainda mais longe, ao defender que vinte séculos de judeo-cristianismo não produziram mais do que virgens, santas, mães, esposas em quantidade em detrimento do feminino na mulher.[26] Um exemplo (entre muitos outros possíveis) de que uma mulher não é toda mãe é-nos dado pela já referida mulher de Stephen Hawking. Recordando uma entrevista desta ao jornal The Guardian (sob o título curioso de Brief History of Hard Times), Kitty Ferguson escrevia o seguinte: “ “Ela pensara que rodear o marido doente com a coragem e assistência que lhe eram tão necessárias, daria à sua vida um propósito e um significado. Porém, não lhe dera uma identidade e o ser mãe não servira exactamente para isso. Jane diz-nos que, embora adore os filhos e ‘nunca tivesse querido confiá-los aos cuidados de ninguém, Cambridge é um lugar bem difícil para viver se a nossa única identidade é a de ser mãe de criancinhas.’[27] Deste ponto de vista, e fazendo uma análise retrospectiva, a equivalência entre a mulher e a mãe não passa de um disparate ou, como diz Damásio em relação a Descartes, um erro. O erro de Freud? Em que medida a civilização, a configuração discursiva que preside à época de Freud, não terá contribuído de algum modo para isso, é o que deixamos em aberto. De qualquer maneira, conviria talvez relembrar aqui – como sublinhava Jacques-Alain Miller em 2004 – que não há clínica do sujeito sem clínica da civilização.[28] Aliás, uma tal equivalência entre a mulher e a mãe não deixou de causar problema desde o princípio. A começar - é justo que se diga - para o próprio Freud. Na verdade, como já referimos, ele concluiu o artigo de 1933, dedicado à Feminilidade, com as seguintes palavras: “Isto é tudo o que tinha para dizer-lhes sobre a feminilidade. É certamente incompleto e fragmentário…[29] Ou seja: tudo o que Freud tinha para dizer-nos sobre este assunto é pouco, não é tudo. O próprio Freud chegou a confessar, já no fim da vida, que apesar de ter dedicado muito tempo à questão do que quer a mulher (Was Will das Weib), esta permanecia obscura. O que nos leva finalmente a perguntar se, em vez de solução, uma tal equivalência entre a mulher e a mãe não traduzirá antes um impasse ou um sintoma do próprio Freud. É por isso que houve quem fosse tentado, já naquela época, a procurar uma outra solução. Foi o caso, por exemplo, de Helen Deutsch. Embora aceitando, de uma forma geral, os postulados e as conclusões de Freud, ela propôs algo diferente. Em 1930, defendeu que “o masoquismo é a força mais elementar da vida psíquica feminina.”[30] É a sua maneira de dizer que a mulher não é toda mãe, mas sobretudo que a mãe não é toda desejo materno. Segundo esta autora, haveria na própria maternidade e nos fenómenos a ela adjacentes - a menstruação, a gravidez, o parto, entre outros - uma dimensão de gozo (no que este tem de masoquista) irredutível ao desejo materno. Uma tal posição, que tende a afirmar que a essência da feminilidade se caracteriza pelo masoquismo, não deixou, desde logo, de causar polémica. Foi o caso, por exemplo, de Karen Horney. Num texto de 1933, intitulado “O Problema do Masoquismo na Mulher”, ela discute longamente a ideia de que “ser mulher é ser masoquista”, numa referência directa às teses de Helen Deutsch.[31] Isto não significa que ela negue, em absoluto, a existência de mulheres masoquistas. “Não há dúvida que este é o caso de inúmeras mulheres neuróticas, mas supor que é essencial a todas as mulheres não é convincente.”[32] O que Karen Horney põe em questão é a ideia, por assim dizer, de que as mulheres fariam todas parte do mesmo conjunto, ligadas por uma única característica essencial. Ou, dizendo à maneira de Lacan, que se possa falar aqui d’A mulher, artigo definido e universal.[33] Há, sem dúvida, como reconhece a K. Horney, algumas que são masoquistas - ou apresentam traços masoquistas - mas não todas. E poderíamos ir ainda mais longe e dizer - o que K. Horney, apesar de tudo, não faz - que mesmo numa mulher que apresenta traços masoquistas, ela não é toda masoquista; diferindo, neste aspecto, do perverso (homem), inteiramente devotado à realização do seu fantasma masoquista.[34] Ou seja, como sugeríamos atrás, uma mulher faz objecção a uma teoria do todo. A certa altura, Karen Horney pergunta-se: será que a suposta natureza masoquista da mulher, e a atracção que a mesma exerce em algumas delas, não resultaria antes de uma conformação por parte destas a uma fantasia masculina? Tal maneira de formular a questão não deixa de ser interessante e fazer eco a uma outra formulada pelo próprio Lacan: não será o masoquismo da mulher apenas uma fantasia do homem?[35] Karen Horney, por seu lado, acrescenta a seguinte explicação: “As mulheres que apresentam estes traços específicos são a maior parte das vezes escolhidas pelos homens, o que implica que as suas possibilidades eróticas dependem da conformidade daquelas à imagem do que constitui (ou é suposto constituir) a sua verdadeira natureza.”[36] Interessante, não? A autora parece estar a defender que, em vez de uma essência, o masoquismo representaria antes uma máscara, um simulacro (semblant) de feminilidade. As mulheres poderiam adoptar, por conveniência, segundo a essencial plasticidade do seu desejo, a máscara do masoquismo, embora o real do seu gozo, digamos assim, não estivesse completamente aí. Desse ponto de vista, seria ajustado dizer, contrariamente ao que se ouve por vezes dizer, que as mulheres estariam mais do lado do real, que lidariam com a máscara (semblant) de um modo mais solto, por assim dizer, que os homens. Isto não quer dizer, longe disso, que elas não façam uso da máscara, da aparência, do “artifício”.[37] Madame de Chatelêt dizia, a este respeito, o seguinte: “A maior parte das mulheres preferia ser menos amada desde que parecesse sê-lo, porque a vaidade é o seu principal sentimento”.[38] O estudo já clássico de Joan Rivière sobre “a feminilidade como mascarada”, em que certas atitudes e comportamentos tidos como genuinamente femininos não passam afinal de uma máscara, usada por esta ou aquela mulher, em determinado momento, para levar a bom porto um certo desejo mais ou menos inconsciente, parece vir ao encontro desta perspectiva. Vejamos, resumidamente, o caso analisado por Joan Rivière. Trata-se de uma mulher aparentemente completa e realizada nos vários domínios da existência. Ela é não só independente e empenhada, do ponto de vista profissional (escreve e dá conferências, o que na altura era bem mais assinalável do que hoje em dia), como parece igualmente assumir, no máximo grau e com satisfação, as funções femininas de dona de casa e de esposa. O que actualmente parece constituir motivo de queixa para tantas mulheres (a difícil conciliação entre o domínio pessoal, familiar ou afectivo e a realização profissional), parece ter encontrado nesta mulher um equilíbrio perfeito. Acontece porém que, sob esta aparente completude e satisfação, ela sofria de uma angústia, por vezes intensa, que se manifestava após cada conferência dada em público. Em consequência disso, ela precipitava-se numa série de “démarches”, quer de sedução, quer de postura sacrificial - tudo fazer para os outros - adoptando aparentemente as formas mais elevadas da abnegação feminina, como se pretendesse dizer: “mas vede, eu não o tenho, o falo, eu sou mulher, e apenas mulher.”[39] Um sonho contado na análise por esta paciente parece corresponder bem a uma tal atitude. O conteúdo manifesto do sonho é o seguinte: “Ela encontrava-se só, em casa, aterrorizada; um Negro entrava e deparava com ela, sozinha, preparando-se para se lavar, com as mangas arregaçadas e os braços nus. Ela resistia-lhe, mas com a intenção secreta de o seduzir sexualmente; ele começava a admirá-la e a acariciar-lhe os braços e o peito.”[40] Sem entrar nos pormenores da análise deste sonho, poderíamos, não obstante, extrair dele algumas notas reveladoras. Em primeiro lugar, ele parece demonstrar uma não concordância entre a posição subjectiva assumida na existência por esta mulher (eminentemente activa) e o seu fantasma inconsciente (aparentemente passivo). No entanto, como já Freud alertava no seu artigo sobre a “feminilidade”, é preciso não cair na ideia fácil de que “dar preferência a alvos passivos” seja “ a mesma coisa que passividade”, visto que para atingir um alvo passivo pode ser necessária uma grande dose de actividade.”[41] E o contrário, neste caso, também seria válido: a máscara da passividade, usada por esta mulher, servindo para ocultar uma activa reivindicação de mestria e domínio sobre o outro (rival), ou seja, como diz Lacan no Seminário V: “A enganar aqueles que tivessem podido ofender-se com o que nela se apresentava fundamentalmente como agressão, como necessidade e gozo da supremacia como tal, e que estava estruturado sobre a história - tal como Joan Rivière desenvolve no seu artigo - da rivalidade com a mãe, primeiro, e com o pai, depois.”[42] Mas, finalmente, o que parece sobressair é que esta mulher, ao oscilar entre uma posição em que manifesta ter (o seu triunfo e trunfos profissionais) e uma outra em que ostenta o parecer (submissa e servil), mostra não apenas que a própria feminilidade pode ser um logro (uma máscara), mas também que uma mulher não é toda aquilo que tem. Diferentemente do homem, como diz Lacan, que não é sem ter (o falo), a uma mulher seria dado ser ou parecer (como na mascarada) aquilo que não tem, fazendo-se amar ou desejar por isso mesmo.[43] Na verdade, segundo uma frase recorrente em Lacan, amar é dar o que não se tem (donner ce qu’on n’a pas).[44] Nessa medida, por amor, uma mulher poderia estar disposta, no limite, a desfazer-se de tudo o que tem para ser amada pelo que é (ou seja, o que não tem).[45] É por isso, talvez, que este amor acaba por ter algo de desmesurado e impossível de satisfazer. Freud, aliás, no seu artigo sobre a “feminilidade”, não deixou de notar este carácter imoderado do amor, em particular infantil.[46] Também K. Horney sublinha e desenvolve longamente este aspecto do amor (insaciável, exclusivo, incondicional…), num artigo de 1926. Aí se vê, sem margem para dúvidas, que este amor visa o próprio ser no que este coincide, no limite, com o nada. “A necessidade incondicional de amor - diz a autora - revela-se na sua exigência de serem amadas sem nada para dar, como que dizendo: ‘é simples amar alguém que nos dá, mas vejamos se continuareis a amar-me se não receberdes nada em troca.’”[47] Será que na era do capitalismo, em que todo o sujeito, independentemente do sexo, da nacionalidade ou da cultura é instigado pelos imperativos do hiperconsumo (segundo a expressão de Lipovestky), este carácter do amor se perdeu, tende a perder-se ou, pelo contrário, resiste apesar de tudo? Como interpretar a grande tiragem de revistas e livros que falam de amores e desamores: puro efeito comercial ou antes a permanência, lá no fundo, de algo que se mantém inerte, intacto, apesar de todas as mudanças ocorridas à superfície? A própria “insatisfação existencial” (a felicidade paradoxal) de que fala Lipovestky não traduzia o avesso, o impasse da crença de que pela mera via do consumo se extinguiria a chama do desejo, do amor ou do gozo? Seja qual for a resposta, uma tal exigência de amor (absoluta e incondicional) não deixa de ter consequências. Poderíamos salientar, a título de exemplo, três delas: ou o amor fracassa (por impossibilidade de o satisfazer), resvala para o ódio ou é simplesmente traído. Retomo algumas ideias que desenvolvi há alguns anos, em particular num texto intitulado: “Da mulher que não existe e das verdadeiras mulheres”.[48] O primeiro caso poderia lançar uma nova luz sobre a questão do masoquismo na mulher. Com efeito, talvez o sofrimento experimentado não seja um fim, uma natureza ou essência da feminilidade, mas antes um meio de que uma mulher se serviria para outra coisa: ser amada. Diferentemente do masoquista perverso, a dor não seria condição, mas condicionada, ou seja, resultaria da própria natureza desmesurada ou impossível de satisfazer do amor. Como escreveu o autor (problemático) das famosas “Cartas portuguesas” - as mais belas cartas de amor, segundo alguns - é sob a condição de ser amada, e apenas como tal, que uma mulher não se importa de sofrer até ao limite do in-suportável. “Ama-me sempre - diz Mariana no final da primeira carta - e faz-me sofrer mais ainda.”[49] Mais do que uma essência (como pretendia, a certa altura, Helen Deutsch), o masoquismo feminino seria, neste caso, um signo, isto é, uma maneira de dizer algo a alguém, de endereçar uma mensagem, uma carta (lettre) de amor a um Outro suposto saber decifrá-la. Se, como diz Lacan do Seminário Encore, o gozo do Outro (Autre), do corpo do Outro que o simboliza, não é signo de amor,[50] também poderíamos dizer, retorcendo um pouco a frase, que um signo de amor não é, forçosamente, sinal de gozo…masoquista. A segunda consequência resultaria numa transformação do amor em ódio. Já no seu artigo sobre a “feminilidade”, Freud dava conta desta transformação, a propósito da desvinculação da menina em relação à mãe. O afastamento da mãe, segundo ele, é acompanhado de hostilidade, a vinculação à mãe acaba em ódio.[51] Já antes, no texto “Pulsões e suas vicissitudes”, Freud nos recordara que não é o ódio que se opõe verdadeiramente ao amor, pois este mistura-se frequentemente com aquele na sua relação com um objecto, mas a indiferença.[52] Assim, o amor, na sua busca insaciável de absoluto e exclusividade, transforma-se facilmente no seu contíguo: o ódio. É para dar conta de um tal fenómeno que Lacan inventa, já na última fase do seu ensino, o termo hainamoration, que liga, de forma inextricável, o amor e o ódio.[53] Por fim, a exigência desmesurada de amor pode ter igualmente como consequência a traição. Isto porque não existe um outro que corresponda e satisfaça plenamente esta exigência incondicional de amor. Todo aquele que é suposto saber amar, acabará, mais cedo ou mais tarde, por defraudar, por trair um pouco as expectativas e ser, por isso, destituído do seu posto. Não será essa a própria essência de uma psicanálise levada até ao fim: a destituição do sujeito suposto-saber-amar? Seria, pelo menos, a minha versão do sujeito-suposto-saber lacaniano. Um dos corolários desta traição de amor, quando acontece, é o seu carácter eventualmente insuportável. Lacan dá o exemplo de Medeia (no mito) e de Madelaine (a mulher de Gide) para ilustrar não só este insuportável, como o acto, inesperado e fulgurante, que se lhe segue.[54] É em relação a este acto (que consiste em queimar as cartas de amor, ou seja, o objecto mais precioso, no caso de Madelaine, e em matar os próprios filhos, igualmente o objecto mais precioso, no caso de Medeia) que Lacan utiliza o termo de verdadeira mulher.[55] Isto quer dizer que é o acto, no que ele tem de real - enquanto este, diferentemente do que pensava Hegel, não é todo racional - que dá a uma mulher em particular, e sempre de forma contingente, o seu momento de verdade. Ela mostra, por meio deste acto, ser capaz de abdicar e separar-se daquilo que possuía de mais precioso, a fim de abrir, no Outro, um buraco irremediável. É o que poderíamos representar, fazendo uso das fórmulas da sexuação de Lacan. Mesmo se uma mulher pode conformar-se, segundo o que defendia por exemplo Karen Horney, a uma fantasia masculina ($ ± "), ou ligar-se ao falo (?), de acordo por exemplo com a solução materna apontada por Freud, ela acaba por desferir, por meio do seu acto, um golpe no coração do Outro [S(%)]. É nesse sentido preciso – e não obscuro, confuso, falho de sentido, como pretenderam Alain Sokal e Jean Bricmont[56] – que Lacan subverte a lógica clássica (de Aristóteles) e simbólica (matemática) para dizer que »*?*, isto é, que um sujeito qualquer (x), quando se vem situar do lado feminino (o que não é apenas fruto de qualquer necessidade biológica, mas resultado de uma sexuação, de um devir que resulta diversas contingências pessoais, familiares, sociais, subjectivas), não é “todo” subsumível numa lógica fálica. Trata-se aqui, se quisermos, do extremo oposto da solução materna: em vez de tapar o buraco do ser (a castração) com o ter (filhos), reabre-se a caixa do ter para, diferentemente de Pandora, não mais a fechar. Mas, como demonstra o mito (Medeia, apesar de tudo, acaba por esquecer Jasão e volta a casar-se), também esta solução é apenas contingente e parcial. Todavia, é nisso que ela mostra ser irmã da verdade, pois também esta não é toda…verdadeira. Eis talvez o que levou Lacan a dizer, em 17 de Maio de 1976, que “não há verdade que (…) não minta.”[57] Mas também esta solução radical, ou trágica se quisermos (estas não são propriamente mulheres que pensaríamos convidar para jantar), não recobre inteiramente o que quer uma mulher. Há ainda, pelo menos, uma outra solução. Se o amor, sendo incondicional na sua exigência e absoluto no seu propósito (quer sempre mais, ainda), não encontra no outro (semelhante) condições para se satisfazer, então resta-lhe elevar-se às alturas, até um ser que seja, ele próprio, Amor. É a solução, a via seguida pela mística, segundo o testemunho que dela nos deu, por exemplo, Teresa de Jesus e a que Lacan não deixou de prestar atenção no Seminário XX. Poderíamos interrogar o que é feito hoje da “mística”, na era da ciência e do capitalismo. Será que ela desapareceu pura e simplesmente ou apenas se metamorfoseou? Vejamos apenas, resumidamente, como se passavam as coisas em Santa Teresa. Uma preocupação constante que ela manifestava era assegurar-se de que Aquele a quem ela se abandonava por amor, era Deus e não o demónio. Dizendo de outra maneira, tratava-se de assegurar que esse Outro Gozo que ela dizia experimentar não derivava de uma qualquer intrusão demoníaca, isto é, sexual (fálica) ou mundana. Daí a diferença entre o arrebatamento (que vem de Deus e eleva o próprio corpo) e a possessão (que vem do demónio e captura o sujeito numa identificação fálica).[58] Contudo, este gozo que Teresa se esforça por bem-dizer parece escapar-lhe. São frequentes, aliás, os seus lamentos sobre a impossibilidade de o dizer. Ela sabe que o experimenta, mas não sabe como traduzi-lo em palavras.[59] Além disso, este gozo, está longe de ser pleno e completo. Não é um gozo sem defeito, que fosse próprio de uma alma unida a um corpo glorioso e não a um corpo terreno, como é o caso - mas um gozo que tem, apesar de tudo, limites e que mistura por vezes, paradoxalmente, a mais profunda desolação e martírio (o que não deixa de lembrar-nos um certo masoquismo) com as mais suaves delícias. É também, à sua maneira, um gozo que se inscreve do lado do não-todo, como sendo não-todo. Santa Teresa não deixa, aliás, de fazer notar os paradoxos do gozo, escrevendo a seu respeito o seguinte: “Duas coisas me parece haver neste caminho espiritual que são perigo de vida: à uma, esta pena, que deveras o é, e não pequeno; à outra, certo excessivo gozo e deleite, tão extremo que a alma parece deveras desfalecer, a tal ponto que já só lhe falta um nadinha para acabar de sair do corpo, o que em verdade não seria nenhuma desdita.”[60] Parece, assim, que uma das vias para abordar este gozo Outro (para além de experimentá-lo, o que é dado a poucos), na medida em que é impossível dizê-lo todo, é o paradoxo. Quando Santa Teresa começa a falar, a escrever sobre este gozo, é geralmente o paradoxo que responde. A outra via - se não quisermos ceder simplesmente perante o silêncio pulsional que ele implica - é a lógica. Foi esta a via que Lacan propôs, no Seminário XX, com as fórmulas da sexuação, já referidas anteriormente.[61] Nelas se vê como o gozo feminino, o gozo específico ao Outro sexo, diferentemente do gozo masculino, a que Lacan também chama “gozo do idiota”,[62] não é todo fálico. A mulher relaciona-se com o falo (Φ), mas também com um gozo Outro de que o significante não consegue dar inteiramente conta [S(%)]. Daí que Santa Teresa, por exemplo, se queixe constantemente das palavras para dizer ajustadamente aquilo que experimenta no corpo. O próprio Lacan inicia o texto “Televisão”, dizendo que é impossível, materialmente, dizer toda a verdade, pois faltam as palavras.[63] Isto significa que de todas as soluções aqui apresentadas para a questão do que quer uma mulher, segunda a pergunta freudiana (ser mãe, sofrer, seduzir ou ser seduzida, amar ou ser amada, vingar-se, gozar…), nenhuma delas diz tudo sobre a mulher. Uma mulher é essencialmente, como dirá Lacan, não-toda.[64] UMA “TEORIA” DO NÃO-TODO? Mas dizer não-toda, a respeito da mulher, não resultará apenas da perspectiva falocêntrica adoptada por Lacan e denunciada, nomeadamente, por Deleuze e Guattari?[65] Dizer “falocêntrico” significa colocar o centro, a primazia, no falo. Porém, o que se pretende dizer quando se fala do… Falo? Como vimos antes, para Freud a organização genital infantil diferia da do adulto pelo seguinte: a criança admitia apenas um órgão genital, o masculino, para ambos os sexos. É por isso que ele chama, a esta fase do desenvolvimento da libido, fálica, não existindo um primado do genital, mas antes uma primazia do falo.[66] Dizer falo, equivale neste caso, como mostrámos, a dizer pénis, isto é, o órgão genital masculino. É precisamente esta equivalência ou significação do falo que Lacan questiona. Para ele, o falo não é o órgão real, nem sequer a imagem de tumefacção que o representa (ainda que esta tenha a sua importância), mas fundamentalmente um significante.[67] O que caracteriza essencialmente um significante, segundo Lacan, é que ele pode faltar no seu lugar. Assim é também o falo: ele tem a característica, significante, de poder faltar no seu lugar. Daí que, mesmo se a mulher não o tem, ela possa sê-lo, segundo a distinção estabelecida por Lacan, o que não seria possível se o falo equivalesse, como pensava Freud, ao órgão sexual masculino.[68] Acontece, porém, que o gozo especificamente feminino parece não ser completamente redutível a esta lógica falocêntrica. Já em 1960, num texto intitulado Directrizes para um congresso sobre sexualidade feminina, Lacan perguntava - como se estivesse a interrogar o suposto falocentrismo que lhe era atribuído - se a mediação fálica drena tudo o que se pode manifestar de pulsional na mulher.[69] A sua resposta é negativa. Segundo ele, na dialéctica falocêntrica, a mulher representa o Outro absoluto,[70] constituindo a sexualidade feminina “o esforço de um gozo envolto na sua própria contiguidade.”[71] É esta via de irredutibilidade do gozo feminino (o Outro gozo) à lógica falocêntrica (o gozo do um, ou também dito, gozo idiota, como vimos antes) que vai acentuar-se progressivamente ao longo do ensino de Lacan. Sendo o falo um efeito do significante, da ordem simbólica, é esta mesma ordem que vai ceder progressivamente o passo ao real do gozo. Desse ponto de vista, e invertendo completamente o cenário, as mulheres estariam mais perto do real, como sublinha Miller algures, sendo o falo um mero simulacro (semblant) que pretende limitar um gozo que é essencialmente ilimitado. Na verdade, como diz Lacan no Seminário X, recordando o velho Tirésias, no plano do gozo, a mulher é superior ao homem. Não se diz aqui se isso é bom ou mau, que vantagens ou incómodos traz, apenas se aponta para uma outra via (por mais problemática que seja) em relação àquela que é apanágio no homem. Poderíamos ainda interrogar: será que há, na realidade, mulheres ou homens “puros”, isto é, que se adeqúem, conformem ou ajustem perfeitamente à posição lógica (lado feminino ou masculino) que lhes é reservado pelas fórmulas da sexuação, segundo Lacan? Ou, pelo contrário, como sugere Freud algures, é tudo uma questão de mistura, não sendo um homem ou uma mulher em concreto mais do que variações entre dois extremos? Não será um sujeito em concreto sempre e apenas “mais ou menos” homem ou mais ou menos mulher? Meras variações, se me permitem a analogia, numa curva de Gauss? A prova de que o próprio Lacan não se limita a conceber as coisas de acordo com esta lógica do não-todo – como se ela fosse paradoxalmente toda a verdade – é a sua última formulação. Uma mulher, diz ele, é um sintoma para um homem, sendo este, para ela, uma devastação. Há, por conseguinte, um sintoma próprio a ele e um sintoma próprio a ela. Ou seja: finalmente, o que parece sobressair, numa era cada vez mais autista, na forma de gozar, unissexual e igualitária, é a orientação no sentido de uma clínica diferencial que não reduza o Outro ao Mesmo. Diria que este me parece ser um dos eixos fundamentais da orientação lacaniana. PARA CONCLUIR Se A Mulher (artigo definido, universal) não existe, segundo a definição Lacan, existem, no entanto, inúmeras mulheres. Nesse sentido, poderíamos esboçar aqui, em jeito de conclusão, uma série de mulheres. Uma série é diferente de um catálogo. O catálogo é uma coisa fechada, limitada (de tal modo que quando se abre ao infinito gera inevitáveis paradoxos, como mostrou Bertrand Russel), enquanto a série pode manter-se perfeitamente em aberto. Ao contar até “mil e três”, D. Juan mostra que é um homem do catálogo e não da série. O que acham? Pela minha parte, modesta, vou apenas contar até dez. Já vêem porque nunca serei um D. Juan. De qualquer modo, vou além do número 9 (Nine), título de um musical famoso que passou há pouco tempo nas salas de cinema. Aqui vai, então: 1) A mulher “decidida” (Antígona): aquela que não vacila no seu desejo, abdicando de todos os bens (filhos, marido…) que constituem a mola do desejo de muitas outras mulheres. 2) A mulher “vingativa” (Medeia, Madelaine de Gide): aquela que desfere, que abre no Outro (%), por meio do seu acto, um buraco impossível de colmatar. 3) A mulher “rica” (@mulher mãe): aquela cujos filhos vêm preencher (pelo menos provisoriamente) o buraco do ser. 4) A mulher “masoquista” (Cf. tese de Helen Deustch): àquele que usufrui, que tira partido, de um modo ou de outro, do sofrimento. 5) A mulher “mascarada” (Cf, Joan Rivière): aquela que veste o seu desejo com a máscara, por exemplo da feminilidade. 6) A mulher “postiço” (Cf. Miller): uma outra versão da mascarada, na qual uma mulher “aparenta” ter, por intermédio do seu homem. 7) A mulher “pobre” (Cf. L. Bloy): aquela que se realiza por meio de um total despojamento do ter e do ser (não ter nada, não ser ninguém). 8) A mulher “sintoma” (Cf. Lacan): aquela que é (que condescende em ser) um sintoma para um homem… 9) A mulher “grevista” (Cf. Aristófanes, Lisistrata): aquela que faz greve de sexo… no caso de não ser amada. 10) A mulher WEB: lembrei-me deste “tipo” de mulher não só como homenagem ao WWW (Was Will das Weib, da questão freudiana), mas também à mulher que se expõe (contrariamente à mulher que se resguarda, cobre ou encobre), que publica, partilha as suas fotos mais íntimas, os seus “orgasmos”, os seus amores ou desamores. Será esta uma das novas versões do “espectáculo” histérico na era da Internet, numa época em que a histeria tende a ser eliminada da nomenclatura dos manuais psiquiátricos? Gostaria de terminar, se me permitem, com uma pergunta e uma piada. A pergunta tem a ver com o feminismo. Como situar hoje o feminismo? O que é feito do feminismo na era da Internet? De uma forma geral, a primeira e a segunda vagas do feminismo tiveram dois propósitos: libertar as mulheres da dependência (social, económica, cultural, política, sexual) em relação aos homens e afirmar terminantemente a igualdade, de facto e de direito, em relação aos mesmos (pensemos, por exemplo, nas teses defendidas por Simone Beauvoir). É como se para todo o X, independentemente de ele ser homem ou mulher, valessem os mesmos atributos, direitos, regalias, possibilidades. Mais do que “a inveja do pénis”, como pensava Freud, o motor de um tal movimento era o “Falo” na sua universalidade igualitária. Como afirma Lacan, nas fórmulas da sexuação: ¹* ?F*. Passada a euforia da primeira e segunda vagas do feminismo, e num momento histórico em que a igualdade entre homens e mulheres está relativamente conseguida, sobretudo nos países desenvolvidos ou em franco desenvolvimento, parece que o movimento feminista tenta reabilitar simultaneamente, quer o valor da dependência,[72] quer uma certa diferença que caracterizaria as mulheres relativamente aos homens. É o que alguns chamam de Terceira Vaga ou, até, de pós-feminismo.[73] Como se, também aqui, a tentativa de reduzir o Outro ao Um estivesse condenada ao fracasso. Como diz Lacan, nas fórmulas da sexuação: »* F*. Como irão evoluir, no futuro, estas duas tendências é o que, de momento, não podemos saber. Será que vamos assistir, como defende Michel Onfray, à ascenção de um “feminismo libertino”, tornando homens e mulheres verdadeiramente iguais na pura experimentação lúdica de uma sexualidade enfim liberta da matriz judaico-cristã? Ou assistiremos, pelo contrário, a uma reivindicação cada vez maior da diferença irredutível? A ver vamos… Termino com uma piada que cito de cor. Num anúncio publicitário, diz um homem para o outro: “sabes qual a semelhança entre um homem que sofre de ejaculação precoce e uma mulher nas compras? Quando começa, quando começa…já não há nada a fazer!” O anúncio termina com a voz de uma outra pessoa, o especialista, dizendo que, afinal, já há solução para o problema. Entenda-se: há solução para a ejaculação precoce, mas não se diz que haja solução para a mulher nas compras. Falamos aqui, finalmente, de duas modalidades de gozo: uma limitada, do lado do homem (mesmo se a dita “solução” estica um bocadinho mais a corda, o gozo continuará sempre limitado, “precoce”, exigindo sempre mais e ainda, mas sendo sempre um pouco menos do que era suposto); outra, aparentemente ilimitada, do lado das mulheres nas compras. Como se o capitalismo do consumo fosse indiferente ao sexo, mas cada um dos sexos não o “capitalizasse”, por assim dizer, exactamente da mesma maneira. Fico por aqui. Espero não ter dito muitos disparates. Gostava de ouvir o que pensa uma mulher sobre tudo isto… [1] Cf. MICHAUX, A. (1993), Dicionário de Misoginia. Lisboa: Bertrand Editora, p. 228. [2] Op.cit., p. 11. [3] STEINER, George (2008), “A ciência está perto dos limites?”, A Ciência terá Limites? Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian/Gradiva, p. 22. [4] LUMINET, Jean Pierre, “A Ciência Terá Limites ? ”, in A Ciência Terá Limites?, op. cit., p. 251. [5] HAWKING, Stephen W., “Gödel and the End of Physics”, Cambridge, 20 de Julho, 2002. Disponível em WWW: http://www.damtp.cam.ac.uk/strtst/dirac/hawking/. Ver igualmente LUMINET, Jean Pierre, op. cit., p. 252. [6] FERGUSON, Kitty (1991), Stephen Hawking - em Busca de uma Teoria do Tudo. Lisboa: Difusão Cultural, p. 14. [7] HAWKING, Stephen, Breve História do Tempo, op.cit., p. 169. [8] Ibid., 204. [9] LUMINET, Jean-Pierre, op.cit., pp. 257-263. [10] HAWKING, Stephen, op. cit., pp. 83-86. [11] GAUMÉ, Luis Alvarez, “Factos e Ficção sobre Teoria de Cordas e Fim da Ciência”, in A Ciência Terá Limites?, op. cit., p. 111. [12] NOBLE, Denis, “La Musique de la Vie”, op. cit., p. 69. [13] Ibid., pp. 73,80. [14] SINGER, Wolf, “Desafios e Implicações Filosóficas das Neurociências”, in A Ciência Terá Limites, op. cit., p. 93. [15] FERGUSON, K. (1993), Stephen Hawking – Em Busca de Uma Teoria de Tudo. Lisboa: Difusão Cultural, p. 31. [16] Cf. FERGUSON, K., op.cit., p. 132. [17] Cf. FERGUSIN, K., op. cit., p. 74. [18] Ibid. [19] Cf. FREUD, S. (1996), Introduction à la Psychanalyse. Paris : Payot, pp. 251-254. [20] Cf. FREUD, S. (2002), « L’organisation génitale infantile », La Vie Sexuelle. Paris. P.U.F., pp. 113-116. [21] Cf. FREUD, S., op. cit., pp. 117-132. [22] Cf. FREUD, S. (1996), “La Feminidad”, Obras Completas, Tomo III, Madrid: Biblioteca Nueva, p. 3166. [23] Cf. FREUD, S., “Feminidad”, op. cit., 3172. [24] Cf. FREUD, S. (2002), «L’analyse avec fin et l’analyse sans fin», Résultats, Idées, Problèmes. Paris : P.U.F., pp. 231-268. [25] FREUD, S., op. cit., p. 2751. [26] Cf. ONFRAY, M.(2008), La Puissance d’exister. Paris: Éditions Grasset et Fasquelle, p. 150. [27] Cf. FERGUSON, K., op. cit., p. 76. [28] MILLER, J.-A., MILNER, J.-C. (2004), Voulez-vous être évalué ? Paris: Grasset & Fasquelle. [29] FREUD, Sigmund, Obras Completas, op. cit., p. 3178. [30] DEUTSCH, Hélène (1994), “Le masochisme féminin et sa relation à la frigidité ”, in Féminité Mascarade, Paris, Seuil p. 230. [31] HORNEY, Karen (1981), “Le problème du masochisme chez la femme ”, La Psychologie de la Femme. Paris: Payot., p. 225. [32] HORNEY, Karen, op. cit., p. 227. [33] LACAN, Jacques, Le Séminaire, Livre XX, op. cit., p. 13 : “ (…) eu disse da mulher, se bem que, justamente, não existe a mulher, a mulher não é toda.” [“(…) j’ai dit de la femme, alors que, justement, il n’y a pas la femme, la femme n’est pas toute. ”]. [34] MASOCH, Sacher (1996), “La Vénus à la fourrure”, in DELEUZE, Gilles, Présentation de Sacher-Masoch. Paris: les Éditions Minuit. [35] LACAN, Jacques, “Propos directifs pour un Congrès sur la sexualité féminine”, Écrits, op.cit., p. 740 : “ Podemos fiar-nos no que a perversão masoquista deve à invenção masculina, para concluir que o masoquismo da mulher é um fantasma do desejo do homem?”. [36] HORNEY Karen, op.cit. p. 242. Não deixa de ser interessante, a este respeito, o livre de KAUFMANN, Jean-Pierrre (1995), Corps de Femmes, Regard d’hommes - Sociologie des Seins Nus. Paris: Nathan. Resumidamente, a tese do autor consiste no seguinte: ao nível do comportamento aparentemente mais anódino, como o destapar dos seios, cada mulher deve respeitar um código preciso, segundo a sua morfologia, a sua idade, a sua cultura e o contexto da praia e compreender os signos enviados pelos olhares que lhe são dirigidos, respondendo por meio da adopção de posições do corpo e de gestos adequados. [37] O filósofo Michel Onfray diz o seguinte a este propósito: “Para devir mulher, a natureza e a mãe devem dar lugar ao artifício, quintessência da civilização.” Cf. ONFRAY, M. (2008), La Puissance d’exister. Paris: Éditions Grasset et Fasquelle, p. 177. [38] Cf. MICHAUX, A., op. cit., p. 275. [39] RIVIERE, Joan (1994), “La féminité en tant que mascarade”, in Féminité Mascarade, op.cit., p. 255. [40] RIVIERE, Joan, “La féminité en tant que mascarade”, op.cit., p. 202. [41] FREUD Sigmund (S/d), “A femininilidade”, in Textos Essenciais da Psicanálise, op.cit., p. 159. [42] LACAN, Ibidem, p. 255. [43] LACAN, Jacques, “La Signification du Phallus”, in Écrits, op,cit., pp. 685-.695 [44] LACAN, Jacques, Le Séminaire, Livre V, op. cit., p. 210. [45] Um bom exemplo de um tal despojamento (a que o próprio Lacan não deixa de ser sensível) é o livro de BLOY, Léon (2005), La Femme Pauvre. Paris: Part Commune. [46] FREUD, Sigmund, op.cit., pp. 166-167. [47] HORNEY, Karen., “Le besoin névrotique d’amour ”, op.cit., p. 259. [48] Cf. PEREIRINHA, F. (2005), Psicanálise & Arredores, Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas, pp. 139-158. [49] ALCOFORADO, Mariana, Cartas Portuguesas, op.cit., p. 19. [50] Cf. LACAN, J., op. cit., p. 11. [51] FREUD, Sigmund, “A Feminilidade”, op.cit., p. 165. [52] FREUD, Sigmund, “Pulsions et destins des pulsions”, op.cit., 11-43. [53] LACAN, Jacques, Le Séminaire, Livre XX, op.cit., p. 84. [54] “Amigas, está decidido o meu acto”. Cf. EURÍPIDES (S/d), Medeia, Lisboa Inquérito, p. 65. [55] LACAN, Jacques, “Jeunesse de Gide ou la lettre et le désir ”, Écrits, op.cit., p.761. [56] Cf. SOKAL, A., BRICMONT, J. (1999), Imposturas Intelectuais. Lisboa: Gradiva, pp. 42-45. [57] LACAN, Jacques, “Préface à l’édition anglaise du Séminaire XI ”, Autres Écrits, op.cit., p. 571. [58] BRUNO, Pierre (Out. 1995), “Une femme, un homme, le ravissement, poésie ”, in La Cause Freudienne. Nº 31. Paris: Navarin Seuil, pp. 21-29. [59] “Não direi coisa que não tenha experimentado muito”. Cf. op.cit., p. 134. [61] LACAN, Jacques, Le Séminaire, Livre XX, op.cit., Lição de 13 de Março de 1973. [62] Lacan, Le séminiare, Livre XX, op.cit., p.75: “(…) la jouissance de l’idiot.” [63] Cf. LACAN, Jacques, “Télévision”, op. cit., p. 509. [64] “(…) É impropriamente que a chamamos a mulher, pois (…) o a da mulher (…) não se pode escrever.” [“(…) c’est improprement qu’on l’appelle la femme, puisque (…) le la de la femme (…) ne peut s’écrire. ”]. Cf. LACAN, Jacques, Le Séminaire, Livre XX, op.cit., p. 75. [66] FREUD, Sigmund (2002), “L’organisation génitale infantile”, in La Vie Sexuelle. 13ª ed. Paris: P.U.F., p. 113-116. [67] LACAN, Jacques, La Signification du Phallus ”, in Écrits, op.cit., p. 690 : “ (…) le phallus est un signifiant (…)”. [68] LACAN, Jacques, Écrits, op.cit., p. 825: “Assim é a mulher por detrás do seu véu: é a ausência de pénis que faz dela falo, objecto do desejo.” [Telle est la femme derrière son voile: c’est l’absence du pénis qui la fait phallus, objet du désir. ”]. [69] LACAN, Jacques, Écrits, op.cit., p. p. 730: “(…) convient-il d’interroger si la médiation phallique draine tout ce qui peut se manifester de pulsionnel chez la femme (…) ”. [70] LACAN, Jacques, op. cit., p. 732 : “(…) dans la dialectique phallocentrique, elle représente l’Autre absolu.” [71] LACAN, Jacques, op.cit., p. 735 : “(…) l’effort d’une jouissance enveloppé dans sa propre contigüité (…)” [72] “A nossa análise leva-nos a concluir que uma das tarefas que se apresenta aos homens nesta altura é a de reconhecerem a sua dependência mulheres e às mulheres a de a aceitarem abertamente.” Cf. ORBACH, S., EICHENBAUM, L., op. cit., p. 183. [73] Cf. Ibid., p. 29.
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Antes de prosseguir os meus propósitos, queria colocar uma objecção que me é prejudicial: serão os meus Seminários, particularmente este Seminário sobre homens e mulheres, uma tentativa de deixar o meu sémen – a palavra Seminário vem daí – no receptáculo (feminino) que vocês, ouvintes e até leitores, seriam? Esta inseminação, por mais artificial que seja, teria de supor, não só que eu estaria a identificar a minha Fala com o Falo, como a fazer amor convosco – mais cruamente a f… – quando vos falo.
Isto pode alertar para o facto de não se procurar a verdade do Mestre apenas no Escravo, como pensava Hegel, neste caso nos escravos do Espírito que vocês seriam como meus discípulos, pois a verdade do Mestre pode sobretudo estar na Mulher que falta, que lhe falta.[1]
Já falei um pouco desses híbridos que são os amigos das mulheres Mas também não seria muito esperto da minha parte fazer-me o amigo dos meus alunos e da minha mulher. Para além de não ser isso que eles desejam, há muito que se sabe que o Mestre será morto pelos seus discípulos e traído pela sua mulher.
O que pode salvar o Mestre e o Marido que também sou do medo de ser impunemente traído, assim como da elucubração de saber e outras tentações especulativas sobre homens e mulheres é o facto de ser psicanalista.
Depois de ter colocado a questão “o que é isso de fazer um Seminário”, devo colocar estoutra: “o que é isso de ser psicanalista?”.
Como psicanalista, sou o resultado da minha psicanálise. Posso mesmo afirmar que foi o fim da minha análise que me permitiu lidar com as minhas formações do inconsciente de um modo diferente do clássico, ou seja, do modo trágico-cómico. Posso também dizer que foi o fim da minha análise que me ensinou a haver-me com o Outro lado da significação fálica, o das minhas vicissitudes pulsionais, se preferirem, da satisfação e insatisfação que me são próprias e não alheias.
Questão suplementar: será que a minha análise transformou também a minha relação com os homens e as mulheres, em particular com a minha mulher e os meus alunos? E mais particularmente ainda, com aqueles que estão muito próximos da estrela ou do planeta que materializo para eles, não as minhas luas ou até os meus lunáticos, mas os meus “alunisandos”?
No que diz respeito à minha mulher, basta dizer que não é minha aluna, nem minha analisanda.
De qualquer forma, quando alguém diz “tu és o meu aluno”, ou “tu és a minha mulher”, está sobretudo a indicar a prevalência do “tu” sobre o “eu”; “tu” que vai além do “alter-ego”, que tem como horizonte o Outro como lugar da Palavra, e finalmente o Outro sexo como tal.
É o Outro simbólico que permite que o sujeito se represente e reconheça o seu desejo. Por esta razão, não me cabe a mim, mas aos meus alunos e à minha mulher dizerem o que pensam da minha “pessoa”.
Já agora posso vos dizer que isso me interessa, mas não muito, porque fui analisado. Nem sequer o que a minha analista teria para dizer sobre o meu caso me interessa hoje.
O Outro que garante a verdade do que sou já não existe para mim, para aquilo em que o analisado que eu fui se transformou: um psicanalista. Depois do que disse, aquilo que pode permanecer misterioso para vocês é que continue a afirmar seguir a “orientação lacaniana” em matéria de psicanálise. Podem pensar que isto prova que o Outro simbólico ainda existe para mim, ou que Lacan continua o meu Mestre, permanece Ecce Homo. Faltar-vos-ia ainda saber quem é mais mulher para mim. Estas questões desdobram-se indefinidamente. Deixo as mulheres em paz e desdobro a pergunta para o meu suposto “Mestre”: “quem foi o Outro para Lacan?”. Foi aliás ele que colocou primeiramente esta pergunta, numa conferência que proferiu na universidade norte-americana de Yale, em 1975. O que ele disse foi: “deixem-me agora responder à minha questão : como me tornei psicanalista?”.
E adianta desde logo um certo número de razões:
Em primeiro lugar, a importância que teve o discurso da universidade na sua aproximação de Freud, em particular a sua tese de doutoramento em medicina em 1932 sobre a psicose paranóica.
Em seguida fala do discurso da histérica, da sua escuta freudiana das histéricas e da descoberta do inconsciente.
Em terceiro lugar entra no discurso do analista, evoca a sua própria análise e a chegada ao ponto em que se autorizou psicanalista, se considerou suficientemente preparado para ousar dizer a outros que começou a atender pessoas em nome da psicanálise. É neste mesmo caminho que encontrará mais tarde os restos sintomáticos que o levarão a criar o “passe”.
Fala ainda do “job”, do que pode ser para alguém pertencer a uma sociedade psicanalítica, da ideia que isso pode trazer vantagens, uma bela situação, apesar de Freud ter prevenido que psicanalisar é uma “profissão impossível”.
Finalmente Lacan confessa a verdade verdadeira, explica que se tornou psicanalista simplesmente porque não há relação sexual, porque a coisa sexual não funciona entre homem e mulher.
Ora, isto que aconteceu realmente a Lacan, acontece a todos os psicanalistas.
Antes de ser psicanalista, cada um é homem ou mulher. É a não relação de complementaridade entre os sexos que conduz muitas vezes à análise. Mas depois de ter feito a sua análise, o analisado não pode posicionar-se mais como homem ou mulher. É este novo sintoma que constitui o terceiro sexo que é o psicanalista. +++ Março 2010
Retomo o meu ensino neste Seminário, depois do Filipe e da Selma terem tomado a palavra durante as últimas semanas.
O Filipe desenvolveu o que os psicanalistas disseram sobre os homens e as mulheres a partir de Freud e Lacan. A um certo nível, ele disse tudo o que faltava dizer para cumprirmos o nosso objectivo deste ano.
Mas a Selma descompletou este programa ao colocar-se uma vez mais do lado do não-todo; ela repetiu o que tinha afirmado no início do Seminário, a saber, que recusava falar dos homens e das mulheres em geral. Não o provou desta vez pelo silêncio, mas falando de uma mulher particular: Simone de Beauvoir. O que disse deixou algumas questões em aberto, por exemplo a de saber se, no fim da sua existência, Simone passou ou não para o lado do Homem, ou se foi de uma posição fálica que teceu a sua relação privilegiada - “homossexual”ou “maternal”? - com Sylvie Lebon.
Que caminhos poderemos ainda percorrer este ano? Um deles consistiria a falar de outros homens e mulheres particulares, por exemplo daquela sobre a qual a Alexandra nos enviou recentemente um e-mail: Irena Sendler.[2]
Podíamos também, como já tinha sugerido, analisar alguns dos casos que foram apresentados pelos colegas estrangeiros que participam no Intercartel clínico de preparação para o próximo Congresso da NLS, ou até no caso (S) que discutimos recentemente no nosso Cartel. Antes de decidirmos por estes ou outros caminhos, tentarei desenvolver um pouco mais a última ideia que tinha lançado a propósito do psicanalista, a saber, que ele não é homem, nem mulher. [1] Santo Agostinho procurou juntar os dois pontos de vista afirmando que a mulher é a serva do homem. [2] Irena Sendler faleceu, com 98 anos. Durante a 2ª Guerra Mundial, Irena conseguiu uma autorização para trabalhar como especialista de canalizações no Gueto de Varsóvia. Ela conhecia os planos nazis relativamente aos judeus. Por isso, trazia meninos escondidos no fundo da sua caixa de ferramentas; um saco de serapilheira servia-lhe para trazer sua camioneta crianças de maior tamanho. Levava também um cão a quem ensinara a ladrar aos soldados nazis quando entrava e saia do Gueto; o ladrar do cão encobriria qualquer ruído que os meninos pudessem fazer. Enquanto manteve este trabalho, Irena conseguiu salvar cerca de 2500 crianças. Por fim os nazis apanharam-na, partiram-lhe as pernas e os braços e prenderam-na. Irena manteve um registo com o nome de todas as crianças que conseguiu retirar do Gueto, que guardava num frasco de vidro enterrado debaixo de uma árvore no seu jardim. Depois de terminada a guerra, tentou localizar os pais que tivessem sobrevivido e reunir as famílias. A maioria tinha sido levada para as câmaras de gás. Para aqueles que tinham perdido os pais ajudou a encontrar casas de acolhimento ou pais adoptivos. Propuseram-na para o Prémio Nobel da Paz, mas não foi seleccionada. Quem o recebeu foi Al Gore por uns diapositivos sobre o Aquecimento Global.
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2008-2009
PROGRAMA DE ACTIVIDADES
A linha directriz deste ano é: "Retorno de Lacan"
Três rubricas:
Psicanálise Aplicada à Instituição
- 14 de Fevereiro 2009: «Famílias modernas: sofrimentos modernos - A Psicanálise em acção directa sobre o Social», uma tarde na Associação Solidariedade e Desenvolvimento do Laranjeiro (ASDL), com Alexandra Lúcio Salvador (Psicóloga clínica) e Daniel Roy (Psiquiatra e Psicanalista da New Lacanian School)
Psicanálise Pura ou Teórica
- Outubro 2008 – Agosto 2009: Seminário sobre «Les écrits techniques de Freud» (Éditions du Seuil, Paris; tradução portuguesa, «Os Escritos Técnicos de Freud», Publicações Dom Quixote, Lisboa; brasileira, Zahar, Rio de Janeiro). A frequência deste Seminário aberto a todos os interessados confere 6 ECTS da Comissão de Bolonha da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias
Horário: todas as segundas-feiras, 10h-12h, sala A12, da Universidade Lusófona
- 30 de Maio 2009: «Actualidade de Lacan». XIV Jornadas do Centro de Estudos de Psicanálise da Faculdade de Psicologia da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e da Unidade de Estudos e Investigação em Ciência Tecnologia e Sociedade. Este evento contará com a participação de Anne-Lysy-Stevens (Vice-Presidente da NLS)
Psicanálise em Conexão
- Curso de formação: A Clínica Psicanalítica
Coordenação: José Martinho
- 30 de Maio 2009: XIV Jornadas do CEP (A Actualidade de Lacan)
- Conferências em livrarias, publicações de artigos, livros e de revista, participação em Colóquios internacionais, etc.
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Seminário
2008-2009
Retorno de Lacan
sobre os escritos técnicos de Freud
Segundas-feiras, 13 de Outubro - 30 de Junho 2008, 10h-12h, sala A12
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Seminário
2007-2008
O corpo e o objecto
na clínica psicanalítica
Sextas-feiras, 9.30 - 11.30, Biblioteca Victor de Sá, sala 2.3, ULHT - Campo Grande
Resumo das primeiras sessões
1
O nosso último Seminário, sobre os Poderes da Transferência, fechou com um certo número de reflexões sobre a "libra de carne" do Mercador de Veneza de Shakespeare, texto em torno do qual giraram as investigações que efectuámos para as IV Jornadas do Núcleo de Direito e Psicanálise.
Posso dizer agora que foi uma boa introdução ao Seminário deste ano. Este Seminário seguirá o tema dos Encontros marcados em 2008 pela comunidade psicanalítica a que pertence a ACF: O VI Congresso da NLS, O corpo e os seus objectos na clínica psicanalítica (15-16 de Março 2008, Gand), e o VI Congresso da AMP (21-25 de Abril 2008, Buenos-Aires), Os objectos a na experiência analítica.
O plural do objecto tem todo o seu interesse, mesmo se dei ao meu título a forma do singular: O corpo e o objecto na clínica psicanalítica.
Podemos falar desse plural de várias maneiras, por exemplo, através das diversas concepções que os psicanalistas se têm vindo a fazer do objecto da psicanálise. Lacan deu-nos igualmente diferentes versões deste objecto.
Até ao Seminário X, ele fala sobretudo do objecto (no) imaginário e (no) simbólico. Com o Seminário X, sobre a Angústia, toma a via do real. Diz, então, que o objecto é um "excerto corporal", algo que se extrai do corpo.
É também neste Seminário que se refere à «libra de carne» do Mercador de Veneza (SX, p. 254 e seguintes, excelente encarnação do real do objecto que denomina pela letra "a".
De que real se trata? Há quem pense que o real em Freud está vinculado à biologia. Na verdade, o objecto freudiano (seio, cíbalo, órgão genital) é sobretudo referido a uma zona erógena (boca, ânus, pénis-clitóris); mas também é verdade, como sublinhou J-A Miller na sua apresentação do Congresso da AMP ("Os objectos a na experiência analítica":http://www.amp2008.com/es/template.asp?textos/miller.html), que estes objectos naturais têm os seus substitutos, melhor, os seus equivalentes ao nível da cultura. Existe finalmente em Freud o mistério do objecto da sublimação, se preferirem da criação, nomeadamente artística e científica.
Lacan inventa o objecto a. Mas chama a atenção para o facto que "a" não é a coisa designada por esta letra com valor de nome próprio; trata-se apenas de uma metáfora, que lhe permite continuar a elaborar o estatuto do objecto psicanalítico.
Desde o início que o termo «objecto» coloca um problema aos psicanalistas. Sobretudo porque Freud fala a dada altura do "objecto perdido". Os teóricos da «relação de objecto» procuraram resolver este problema um pouco à pressa. Pensaram que se podia não só conhecer, como encontrar o tal objecto perdido. Foram, assim, conduzidos ao seio como objecto primitivo. Lacan complica esta deslumbrante visão, distinguindo, por exemplo, o mamilo como píncaro do desejo (da mãe) e a mama como fonte da angústia (oral).
Para Lacan, a perda de que fala Freud deve ser referida ao «recalcado primordial» e não apenas ao narcisismo primário ou do self, como se diz agora. Esta perda estrutural faz com que "a" permaneça incógnito, impossível de representar e encenar, de se enquadrar na realidade psíquica e material do neurótico; a fica fora deste enquadramento.
Précluido desse quadro, "a" pode, no entanto, impor-se como coisa: é o que acontece com a voz na alucinação psicótica.
2
Qual é a verdadeira natureza do objecto a?
O indivíduo da espécie começa por formar imagens das coisas que se irão chamar «objectos» num cérebro ainda prematuro. Este é o primeiro espelho de uma realidade à partida fragmentada.
Não é a percepção, mas a imagem especular que vai conferir uma unidade a estes fragmentos. Assim, é ela que está na origem da formação de unidades como o alter-ego e o ego, como da sua relação intersubjectiva.
Estamos aqui no plano do que Lacan chama a "relação imaginária". O Imaginário confere um privilégio à vista e, mais conscientemente ou intencionalmente (como diz Sartre), à contemplação. Lembro simplesmente que, no Seminário XI, Lacan sublinha que aquilo que move realmente e desde o início o olho do sujeito é o olhar enquanto objecto da pulsão escópica.
Ainda na primeira etapa do seu ensino, Lacan introduz um terceiro termo, que vai cruzar e cortar a relação dual, o grande Outro que chama «ordem simbólica». Este é o lugar do código que situa a dimensão do «objecto comum», do objecto que eu e o outro podemos cobiçar e possuir, logo, do objecto com «valor de troca».
Com o objecto comum, podemos finalmente sair da problemática da identificação primordial, constituinte da identidade do Eu e do seu outro, e entrar na escolha ou relação de objecto propriamente dita. Passamos, então, da questão do ser ou não ser à questão do ter ou não ter.
Mas há objectos que não se trocam ou que se colocam do lado da não relação com o outro. O valor de uso disso que não se quer trocar permanece no mundo contemporâneo, mesmo se o que reina neste para lá da informação (S2) é o mercado dos objectos de consumo (S1).
Na tópica do Imaginário e mais particularmente no estádio do espelho o objecto que não se troca é por excelência o corpo próprio. Em seguida, Lacan promove o Falo freudiano à categoria de símbolo (da libido). No Simbólico é este que fornece o exemplo privilegiado do que não se troca ao nível do inconsciente (como exemplifica a significação fálica do objecto fetiche). Por fim, podemos dizer que o objecto que realmente não se troca é o objecto a.
O Falo é poderoso porque substitui o (objecto) que falta ao sujeito. Isto faz com que o falante sinta a angústia como angústia de castração.
No Seminário X, Lacan introduz ao que está para lá da castração lembrando que os psicólogos afirmaram que a angústia não tem objecto. Freud fala da angústia de «qualquer coisa», e Lacan insiste que a angústia não existe sem (ter) objecto (n´est pas sans object).
A angústia devia ocupar um lugar privilegiado na clínica psicanalítica, pois é a maneira mais imediata de aproximar o real do objecto a. Em termos freudianos, de ir além do medo do Outro que a mãe ou o pai encarnam, da sua ameaça de castração (cf. a «rocha» de Análise terminável e interminável). Lacan situa aqui a angústia como o afecto que não engana.
O objecto não é um afecto. A descarga de adrenalina ou o batimento acelerado do ritmo cardíaco apenas assinalam que há um real em causa.
Como aproximar o real do objecto a? Este real tem a ver com o corpo (a angústia é aliás sentida como fenómeno corporal), toda a dificuldade sendo de saber o que é um corpo.
Referi-me acima ao corpo próprio a propósito do objecto imaginário que não se troca. Mas o corpo é mais normalmente confundido com o organismo. Daí que, em última instância, se tenda a pensar a angústia em relação ao desenvolvimento da vida desde o nascimento. Agora investiga-se também a vida do feto.
Pequeno parêntesis: procuro nestes Seminários tecer algumas considerações sobre os últimos avanços dos colegas que não são lacanianos, nomeadamente sobre as elaborações dos sócios da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Provo, assim, que sei que existem e que estão vivos, trabalhando. O mesmo não posso dizer deles. Ignoram-me simplesmente. Por exemplo, o último nº da sua revista volta a não fazer a mínima referência a Lacan e aos lacanianos. O XIX Simpósio da SPP vai ser sobre o bebé. Como o bebé não fala nem pede uma análise será interessante ver o que aí se irá dizer; mas podemos ter já alguma ideia lendo o último nº do "Órgão Oficial e Científico" que é a Revista Portuguesa de Psicanálise (agora editada pela Climepsi). Os meus colegas andam a servir-se neste momento de uma nova analogia para falar da relação (interjectiva, precoce, etc.): a «dança». Ao que parece há uma dança melodiosa entre a mãe e o bebé, mas também uma coreografia da relação analítica. Saber dançar com o outro, dizem, é saber amá-lo. Bem, se quem fala assim já dançou, deve também saber que os corpos que se juntam numa dança são muitas vezes levados a enrolarem-se numa «cama». Isto para dizer que as analogias dos meus colegas não lhes permitem sair da fantasia que a relação sexual – incestuosa – é possível!
Voltemos à biologia, onde o fantasma da complementaridade dos sexos é também proposto a propósito da reprodução. A biologia progrediu muito nos últimos tempos, mas não é da génese e estrutura do organismo e das funções dos seus órgãos que se ocupa a psicanálise.
Um exemplo: em Inibição, Sintoma e Angústia Freud lembra que o aparelho sexual do impotente pode estar perfeitamente são. Efectivamente, a angústia e a inibição podem conduzir à ejaculação precoce, ou à frigidez, mesmo quando existe normalidade anatómica e fisiológica.
A psicanálise é psicanálise do sujeito e não do seu organismo. Por isso, o corpo em questão é o do sujeito. Trata-se do sujeito da fala e não do indivíduo da evolução biológica, do Eu da reflexologia ou do comportamentalismo psicológico, nem do simples cidadão com o seu bilhete de identidade social.
É a certos tipos de nós que se atam na realidade psíquica deste sujeito que Freud chama angústia, inibição e sintoma. Estes nós podem desatar-se com o desejo de falar a um analista. Tal desejo não supõe mais nada senão o Outro como lugar da palavra. Não se trata, pois, daquele que habita esse lugar em carne e osso, o Analista, com tudo o que representa na transferência; o Outro radical é o campo da linguagem, com a função de corte que aí tem a fala.
3
No campo da linguagem, é a função de corte da palavra que constitui também a dimensão da verdade enquanto separada da mentira e do erro.
Freud amava a verdade e apostou decididamente na busca desta para transformar o mundo. Contava, ainda, com o aspecto salutar da verdade do sujeito, que consiste em transformar as confusões do passado numa história com futuro.
Mas atenção: o corte que a fala do analisando efectua no que o amarra a inibições, sintomas e angústias, bem como aquele que é operado pela interpretação do analista não são a marca deixada na realidade psíquica, o traço a partir do qual se pode refazer o traçado da verdade e atribuir um sentido à história. Mesmo se permite a interpretação e a construção, o corte não é semântico. A procura do sentido pode mesmo esconder o corte e levar à denegação da verdade como ficção da palavra, mas também à recusa do real com que lida o falante.
Mesmo quando procura a verdade, o falante anda às voltas com o real, nomeadamente, com o real do corpo.
Que corpo supor ao sujeito da fala? Antes de mais, o corpus simbólico, ou seja, a cadeia significante que sobredetermina psiquismo e organismo, logo, o nível inconsciente e pulsional.
Para que o psicanalista consiga abordar convenientemente este corpus, convém que tenha acesso ao saber sobre a estrutura da linguagem, não sobre a estrutura do organismo (Kurt Goldstein). Foi por isso que Lacan se interessou pela «língua» de Saussure e não propriamente pela biologia, a psicologia e a sociologia, nem pela ideologia estruturalista, que como se sabe apenas durou uma estação literária. É ainda a língua de Saussure que o real designado pela letra «a» transformará no que Lacan chamará mais tarde "alíngua".
Isto para dizer que não se pode ir à pesca do objecto a sem a rede da língua. E a cana do Falo.
Ainda que o objecto não seja uma palavra (escrita ou falada), que escape à linguagem e à sua formalização, são estas que permitem situá-lo no seu uso, nomeadamente analítico.
O princípio da talking cure é a função da fala no campo da linguagem. Porém, alguns lapsos foram cometidos por certos interessados pela psicanálise que os levaram a pensamentos sobre o objecto contrários a este princípio. Eis alguns exemplos:
1) O laspso kleiniano consistiu em colocar a Mãe (objecto total) ou a mama (objecto parcial) no lugar da Coisa perdida por força ou em virtude da língua, se preferirmos, do Ovo partido pelo significante. Assim, o final de análise kleiniano torna-se uma dialéctica dual, infinita e ambivalente entre o desejo de desmame e a recusa do desmame.
2) Um outro lapso – da Ego Psychology – consistiu a substituir o objecto ausente pela consciência do mesmo. No seguimento do que a Fenomenologia chamou a «intencionalidade», pensou-se que o objecto era aquilo para o qual tendia a consciência, que é sempre consciência de qualquer coisa. É a este objecto-intencional que Lacan vai contrapor o objecto-causa. Assediar o real do objecto a será então, para ele, atacar o problema da causalidade.
Convém insistir sobre o facto que o objecto da psicanálise não é aquilo que se encontra diante da consciência e a atrai, mas o que a persegue e de que ela foge a sete pés. É também a propósito deste conflito do Eu consciente com o objecto perseguidor que Freud fala de «censura» (metáfora sócio-linguística), de recalcamento (metáfora arqueológica) e mais geralmente de «mecanismos de defesa» (metáfora politico-bélica).
Foi sobretudo esta última metáfora que conduziu boa parte dos psicanalistas a reduzir o conceito freudiano de Inconsciente a um "inconsciente dinâmico", que opõem ao "não consciente" da neurologia e da psicologia cognitiva. É o que diz ainda António Coimbra de Matos no seu último livro (Varia, existo porque fui amado. Lisboa: Climepsi, 2007). Ora, não é só a perspectiva tópica e topográfica que se elimina deste modo, mas também a perspectiva económica, o negócio entre o sujeito do inconsciente e o gozo pulsional.
3) Um terceiro lapso – próprio aos adeptos de Bion – consiste a pensar o objecto do amor e do ódio como um objecto prometido ao conhecimento (a transformação dos vínculos L, H em vínculo K). Mas o objecto analítico não é um objecto do conhecimento, nem o obstáculo que leva à «ruptura epistemológica» (Bachelard) com que se depara o progresso da ciência.
Como Bion, Lacan retoma a tradição pós-kantiana a que pertence Freud, a qual distingue a Coisa-em-si dos objectos do conhecimento, condicionados pelo espaço e o tempo, as categorias do entendimento e as ideias da razão. Todavia, fá-lo sem o misticismo indiano da verdade que abarca a Coisa bioniana, e sobretudo para dizer que aquilo que se analisa são as «formações do inconsciente», não o Inconsciente como uma Coisa-em-si.
Isto significa que não existem cientistas ou especialistas da Coisa freudiana, como pretendem aqueles que querem fazer da psicanálise uma ciência do Inconsciente.
No Seminário X, Lacan critica ainda a pseudo positividade da psicologia científica de Conrad Stein e de Jean Piaget. Aproveita aí para dizer que o objecto psicanalítico não é objectivo, nem subjectivo, e distingue entre "objectividade" e "objectalidade".
Mas já há muito – veja-se por exemplo a sua «Intervenção no 1º Congresso Mundial de Psiquiatria» (1950; Autres écrits, p.127) – que Lacan tinha avisado que, por princípio, a objectividade científica exclui o sujeito e os seus interesses, mas também o desejo do Outro e as significações veiculadas pela linguagem, que mobilizam as imagens que erigem os comportamentos e regulam funções vitais.
Como assediar realmente o objecto a numa análise? Dissemos que a maneira mais imediata é através da angústia, pois esta não engana, contrariamente aos outros afectos, que se deslocam com as representações psíquicas de palavra e de coisa e desembocam no "senti-minto". Também por este motivo, o analista não procura eliminar a angústia, como tentam fazer médicos e psicólogos.
O Seminário X situa o objecto a como o "ponto de angústia", em particular, da angústia que afecta o sujeito falado pelo Outro, por exemplo, face à demanda materna do Falo.
Mas é também o objecto a que permite fazer o ponto da situação na análise: é o que Lacan chama o "ponto do desejo", o ponto em que o sujeito se encontra em relação ao que diz desejar.
O objecto a é, pois, causa de angústia e causa de desejo. Desatando estes dois fios causais, Lacan conclui que desejar é a melhor solução para o sujeito se libertar da angústia.
4
Ob-jectum: é aquilo que é lançado para a frente, que faz face, frente ao sub-jectum, ao que é suposto. Desde Descartes, que o que subjaz é a substância pensante do cogito ou da alma, separada da substância extensa ou matéria corporal.
As cogitações dos kleinianos levaram-nos também a conceber o objecto como algo de mau que o indivíduo tem dentro de si, projecta no exterior, para o purgar (eventualmente com a ajuda do analista) e, de seguida, poder incorporar como bom. Por sua vez, os bioniamos procuraram com o seu Knowledge sair desta oposição simples entre o bom e o mau objecto.
Lacan sustenta que é só no imaginário que o objecto existe como "projectado" e "incorporado". No simbólico, ele ex-siste como "introjectado" ou "recalcado".
A "ex-sistência" não é a "existência" dos existencialistas. O que Lacan chama ex-sistência compreende o significante e os seus efeitos de significado sobre a vida, por conseguinte, a emergência nesta do sentido.
A "introjecção" é a admissão do significante na realidade psíquica. É uma vez admitido este que pode haver recalcamento; no sentido lato, o recalcamento é um mecanismo de defesa neurótico, perverso (recusa) e psicótico (préclusão).
A análise kleino-bioniana não é uma análise do recalcamento significante, mas da fantasia imaginária, com a dupla posição (esquizo-paranóide/depressiva) do sujeito da relação com o objecto (bom/mau),
No simbólico há a frase do fantasma, do tipo da que Freud analisa em "Uma criança é batida" (cf. Esquecimento e Fantasma. Lisboa: Assírio & Alvim). Esta proposição mostra que o objecto não é projectado, mas está separado do sujeito que se encontra sob o jugo do significante. Muito precisamente, o sujeito lê o objecto na proposição com o fim de se masturbar, de alcançar um gozo narcísico e autoerotico. Por isso é preferível dizer que é o objecto que projecta uma luz sobre o ecrã do fantasma, sobre o gozo que se tenta aí fixar.
Quando o real do "gozo" (jouissance) se torna central no seu ensino, Lacan distingue o «objecto a» tal como o tinha pensado até então e o "plus-de-jouir" (cf. Seminário XVI, De um Outro ao outro. Paris: Navarin-Seuil). A partir daí, esta distinção leva-o do objecto perdido causa do desejo ao «saber lidar com o gozo» e o seu sentido (jouis-sens).
Tudo isso traz também e de novo o enigma do corpo para o ensino de Lacan. Neste último enquadramento, aparentemente monista, Lacan previne que a terminologia sujeito/objecto – omnipresente na fórmula do fantasma $&a - se tornou tão imprópria para a psicanálise como a terminologia causa/efeito.
Ir além (da teoria) do fantasma do desejo passará desde logo pela continuação da elaboração lógica destas oposições simétricas e diacríticas, fundamentalmente metafísicas, de modo a esclarecer a estrutura do «vazio» que constitui toda relação.
Antes de abordar o problema que coloca este vazio, deixo-vos com mais um parêntese para terminar: Carlos Amaral Dias escreveu há alguns anos um livro em que militava pela "psicanálise da relação"; e Coimbra de Matos um aforismo recente, que reza assim: «o cérebro alimenta-se de informação; a alma de relação». Mais adiante, clama mesmo, num tom messiânico, pela vinda da era do amor
Os meus colegas da SPP apostaram decididamente na relação, esquecendo-se que a psicanálise é essencialmente psicanálise da não-relação.
O postulado do último ensino de Lacan é precisamente a não relação sexual. Ele decorre de um facto conhecido desde sempre, que a relação biológica entre os sexos é incapaz de inscrever, estabelecer uma verdadeira relação psíquica e social.
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Entre os sexos há um vazio. Mas temos sempre grande dificuldade em representar este vazio, bem como aquilo que pode dar a ilusão de preenchê-lo, ou de jogar com ele. Lembro que "ilusão" e "lúdico" têm a mesma raiz latina, "ludos", o jogo.
O Seminário do ano passado foi sobre o amor, suas ilusões, seus jogos e poderes. Ora um dos poderes do amor é precisamente de preencher o vazio da relação sexual.
Este vácuo pode ser visto como um furo, uma ausência, ou concebido como um «hiato irracional» (título de um pequeno texto de Lacan), até mesmo como sendo o «Nada».
Tudo isto já foi elaborado pelo pensamento, em especial oriental. Lacan refere-se desde o início ao Budismo Zen e ao Taoísmo, mas no Seminário IV procura sobretudo situar o vazio nos três registros orientadores da sua clínica. Fala, então, da "privação" (real), da "frustração" (imaginária) e da "castração" (simbólica).
No Seminário VI, a propósito da cova que morte abre, Lacan remete para o que acontece com a preclusão psicótica e opõe a esta o «trabalho de luto» como aquilo que transforma o "buraco no real" em construção de um vazio simbólico.
É o simbólico que cria a falta num real em que nada falta. É por exemplo isso que significa a falta de um livro numa biblioteca.
O Seminário VII, A Ética da Psicanálise, estende esta ideia do vazio a todo o Ser. Lacan fala aí do vazio de «das Ding», termo que ele foi pescar em Freud, Heidegger e alguns outros. O problema é nuclear para o ser falante, pois este não tem uma relação directa com a Coisa-em-si, mas uma relação com os fenómenos que passa pela linguagem e as representações psíquicas inconscientes e conscientes. É deste modo que se constituem os seus objectos (sensíveis, religiosos, artísticos, científicos, etc.)
Da Coisa barrada pelo significante, Lacan passa à "acoisa" produzida por este. Insiste, então, sobre tudo o que se cria a partir do vazio.
Mais tarde vai conceber o vazio como a matemática concebe o número «zero». Esta operatividade do zero como número leva Lacan a referir-se aos Fundamentos da Aritmética Frege.
O Seminário XVI convoca a "sequência de Fibonacci", construida por Leonardo de Pisa, um matemático italiano do século XIII, para calcular a reprodução e crescimento de uma população de coelhos (http://pt.wikipedia.org/wiki/N%C3%BAmero_de_Fibonacci ).
A sequência de Fibonacci é a sucesão infinita de números naturais – 0,1,1,2,3,5,8,13,21,34,55… –, em que o primeiro elemento é 0, o segundo 1, e cada elemento restante a soma dos dois anteriores (razão da série). Lacan faz equivaler o 1 ao elemento significante e o 0 ao «objecto a».
Procura ainda estabelecer uma equivalência entre o objecto a e o que a lógica simbólica chama conjunto vazio.
Estas são algumas das facetas que mostram a natureza matemática do objecto, ou o objecto a como matema da psicanálise.
No resumo do Seminário sobre o Acto analítico Lacan refere-se à passagem de uma concepção do objecto como contingência corporal à sua concepção como consistência lógica. Isto acentua que o objecto é a conclusão lógica de uma análise.
Finalmente, com o postulado da não existência de relação sexual e a entrada em cena do "pas-tout logique" (pathos lógico), Lacan vê-se forçado a ultrapassar a apreensão conceptual do vazio e a elaborar a sua localização topológica.
É aqui que o objecto a deve ser decididamente designado como "plus-de-jouir". De facto é este que joga, do lado feminino (cf. fórmulas da sexuação no Seminário XX), mas para cada um dos sexos, a função de suplemento do gozo da «castração».
No Seminário XXI, a problemática da castração aparece através do neologismo «amur». Esta palavra denota o papel que joga «a» no amor («la mourre» é um jogo de sociedade a que Lacan se refere igualmente). O objecto é ao mesmo tempo a lei reguladora do jogo do desejo e um resto de gozo.
Juntando o "a" do "amour" à palavra "mur» (muro), Lacan forja um termo para designar o que está para além do obstáculo fálico detido pelo Pai (do Pai da Lei edipiana e do Pai do Gozo de Totem e Tabu).
Em português podíamos também falar de «murro», e dizer, como na expressão batatas "a murro", que é um murro que Lacan dá no Pai. E porque não em Freud como ideólogo da função paterna?
Para além do Pai, a abordagem topológica do real do objecto e do corpo vai conferir um outro estatuto ao gozo (a)sexuado enquanto satisfação contrária aos interesses do sujeito e ao desejo do Outro. É este caminho que o derradeiro ensino de Lacan segue.
Enquanto «lacanianos», convinha que elaborássemos um pouco mais este ano, em Seminário e em Cartel, a topologia dos gozos e as suas implicações clínicas, por exemplo, a propósito da identificação do sujeito (oito interior; banda de Möebius), do fantasma do desejo (cross-cap), e do gozo do sintoma (nó borromeano) psicótico (nó a três), perverso e neurótico (nó a quatro).
É um exemplo deste trabalho que darei da próxima vez apresentando-vos um caso clínico construído para o efeito.
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Apresentação de um caso clínico
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14 de Dezembro 2007
Conferência de Ruth Chindler sobre a
"Cena primária"
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Apresentação de um caso clínico
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O objecto a e os três Lacan
A expressão «os três Lacan» refere-se essencialmente às três dimensões – o Imaginário (I), o Simbólico (S) e o Real (R) – que o psicanalista introduz no início dos anos 50 do século passado. Podemos ler estas três dimensões na sua sincronia e entrelaçamento, mas também na sua diacronia e superação, como sucessivas etapas de um ensino, nas quais Lacan privilegia, ora uma, ora outra destas dimensões. Num primeiro tempo, a ordem é: ISR; num segundo tempo é: SIR; e num terceiro tempo: RSI.
No 1º Lacan – digamos, o do «Estádio do espelho» e Seminários I e II – o objecto é sobretudo uma imagem.
Diria que o objecto é uma imagem do indivíduo já mergulhado na marmita pulsional – (Es) S –, ou do Sujeito na sua inefável e estúpida existência. O que significa que não estamos ainda no momento do Sujeito que Lacan escreve $, isto é, do sujeito do significante.
A imagem é outra. A imagem que interessa a criança é sobretudo a da mãe ou a do objecto parcial seio; noutra linguagem é a imagem do semelhante e do pequeno outro, do alter-ego (a’); depois é a imagem que surge no espelho, a imagem especular do que virá a ser o corpo próprio, a propriedade privada de base; finalmente, é a imagem constituinte do seu Eu (a), tanto como sujeito psicológico, que como sujeito do conhecimento. É também o objecto imagem que está na origem da projecção e erecção de um Eu-ideal.
Como é que o simbólico (autonomia que Lacan sitia em A) interfere na «relação imaginária»? Antes do Seminário III, sobre as psicoses, que trata explicitamente do problema da admissão ou preclusão da ordem simbólica, podemos dizer que basta pensar que a criança que reconhece o corpo no espelho acaba por lhe dar o seu nome, nome que recebeu do Outro (A).
Convém então saber distinguir aqui entre o Outro parental e o Outro como lugar do código de onde parte a mensagem, que é também o lugar da verdade. Termino hoje, lembrando que não é a verdade universal da filosofia e da ciência, mas a verdade inconsciente que interessa particularmente o sujeito que inicia uma análise, logo, a própria psicanálise.
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A nomeação do corpo e do Eu revela aquilo que o 2º Lacan – o do dos Seminários IV, V e VI, As relações de objecto, As formações do inconsciente e O desejo e a sua interpretação – apresenta como a "falta no Outro", que se encontra para além da castração da Demanda de amor.
Encontramos esta falta localizada no «grafo do desejo», do texto dos Escritos, "Subversão do sujeito e dialéctica do desejo".
É a recusa da castração ou da denegação da divisão subjectiva que está na origem do fantasma que Lacan situa entre gozo (Jouissance) e significação s(A). Será no fantasma que Lacan virá a chamar "fundamental" (cf. Kant com Sade) que o objecto mostra funcionar como rolha tapando o buraco do Sujeito. E do Outro.
No grafo do desejo, o fantasma fornece a fórmula do cenário significante do objecto que funciona como Ideal do Outro – I (A) - para o Sujeito da cadeia significante ($). O fantasma é uma encenação imaginária, assinalada pelo itálico na escrita de Lacan ($&a).
É com a «Ética da Psicanálise» (Seminário VII) que Lacan introduz o real do Gozo, que se encontra para além do ecrã do fantasma. Ele não fala deste Gozo em nome da libido, mas em nome da Coisa, das Ding, termo que foi buscar a Freud, Heidegger e alguns outros, mas de que assume a responsabilidade.
No Seminário seguinte, sobre a «Identificação», Lacan prefere ligar a Coisa ao objecto a. Falará, assim, em nome d’"acoisa", isso que é o objecto a, nomeadamente no amor de transferência (o analista no lugar do objecto de gozo do sujeito).
No Seminário X, sobre a Angústia, o objecto é finalmente referido a cinco formas da satisfação do pulsional: oral, anal, fálica, escópica e vocal.
O Seminário XI mostra mesmo que o objecto perdido que causa o desejo está também ao serviço da satisfação do corpo pulsional.
Como é que o objecto perdido do desejo pode satisfazer a pulsão? Os Seminários XIV e XV, A lógica do fantasma e o Acto analítico tentam responder a esta questão. Aquilo que Freud chamava "pequena parcela separável do corpo" (plural que implica o objecto a com múltiplo), vinculada, mas separável da contingência corporal, é finalmente elaborada por Lacan como consistência lógica. Assim, a citação da "libra de carne" servia sobretudo para indicar que existe algo que não é especular, nem elemento significante, que descompleta a imagem e fura a ordem simbólica. A elucidação da verdadeira natureza do objecto a, passa, pois, pela lógica. O próprio fim da análise é visto como a conclusão lógica do que aí se disse. Depois da linguística, ciência da língua, reforça-se a aposta de Lacan na lógica como ciência do real.
Lacan acabará por dizer que não há ciência do real. Isto começa a ser lisivel no Seminário XVI (De um Outro ao outro), que inventa o termo "plus-de-jouir" a partir de uma leitura da «mais-valia» marxista. O "plus-de-jouir" não é exactamente o objecto a, mas a extorsão de gozo provocada pelo discurso que faz liame social e o resto de gozo produzido nessa operação.
A positividade desta extorsão ou torção é uma novidade que vem indicar que o significante não mortifica propriamente o corpo, mas produz o gozo do corpo pulsional na forma do «gozo da castração» que é o "plus-de-jouir".
Será o "plus-de-jouir" o real do objecto a? Será que se pode falar do objecto a como real? A resposta definitiva é não.
Lacan diz que no real nada falta, mas o objecto está ligado ao que falta no imaginário e no simbólico: ele funciona como mancha na imagem e buraco no lugar do significante. É um "enforme", escreve Lacan, que apenas se situa na deformação que confere ao Outro a sua estrutura topológica.
O objecto imaginário não existe sem os efeitos do significante, ou seja, o objecto a é um produto do significante, mas não a sua propriedade. Podemos, então, dizer que ele escapa à cadeia significante como a mais-valia ao trabalhador.
Lembro que o Seminário X não fala do objecto a como real, diz apenas que ele desperta no sujeito o real da angústia.
Por sua vez, a consistência lógica do objecto a (que se dá a ler no objecto como uno ou único) é apenas o que faz ex-sistir o Outro, que é não só incompleto, como inconsistente.
Mas é precisamente esta consistência lógica - a lógica moderna é «simbólica» - do objecto a que lhe retira o seu estatuto de real.
É o primeiro Seminário do derradeiro ensino de Lacan, o XX, Encore, que começa a falar do objecto como "semblant". O objecto a é um "semblant d´être" (não apenas um aparência ou simulacro, enquanto que o real é definido pela modalidade lógica do impossível ("ne cesse pas de ne pas s´écrire"); ou, então, referido ao Gozo do Outro que não existe, melhor, da Outra ("A mulher não existe", La femme n´existe pas).
É dizer que o Gozo (com maiúscula, pleno, completo) é impossível. Lacan propõe então : "la jouissance ne s´interpelle, ne s´évoque, ne se traque, ne s´élabore qu´à partir d´un semblant".
É isso que lhe ensina a psicanálise, pois não é na natureza, nem na cultura que encontramos o melhor exemplo de semblant, mas no quotidiano de uma análise, mais precisamente no analista que é capaz de interpelar, evocar, assediar e elaborar o gozo do analisando.
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Seminário
2006-2007
Os Poderes da transferência
*
1º Semestre
Apresentação
O Seminário deste ano sobre Os Poderes da Transferência é o contraponto daquele que animei em 1996 sobre Os Poderes da Palavra; ele procurará também explorar o que está contido no título do V Congresso da Nova Escola Lacaniana (NLS), O Nascimento da Transferência (Instalação e Manejo da Transferência Psicanalítica: é o subtítulo), que se realizará em Atenas, nos dias 19 e 20 de Maio de 2007.
Tinha já sublinhado no meu Seminário sobre os Desafios da Psicanálise (2004-2005) a existência de uma relação estranhamente íntima entre a deusa do amor e Freud. É esta mesma relação que simboliza o título da Revista Lusófona de Psicanálise Pura e Aplicada, Afreudite.
Quem foi Afrodite, a Vénus romana? Uma deusa gerada pelo sémen de Urano, castrado por Cronos, que caiu ao mar e fecundou Gaia. A sua gestação fez-se numa concha, que logo ao se abrir mostrou um ente de grande beleza, que desencadeou paixão, inveja e ciúme. Depois desta Afrodite celeste, apareceu o seu sucedâneo terrestre, a Afrodite filha de Zeus e Dioné.
O título Nascimento da Transferência faz forçosamente pensar no Nascimento de Vénus[1]. Desde o início que a transferência psicanalítica é amor, logo, gera também ciúme, inveja e paixão (paixão significa sofrimento).
Um outro mito grego citado por Freud, o de Eros, fala daquilo que está na origem do amor: a falta (Pénia) e o recurso (Poros).
Os dois outros mitos gregos do amor a que a psicanálise se refere são Édipo, o amor incestuoso e parricida, e Narciso, o amor de si.
O Deus dos cristãos também é Amor (Agapé). A caridade cristã manda amar o próximo como a si mesmo, procurando com este mandamento reunir num só amor (o do grande Outro divino) o amor de si e o amor do semelhante (pequeno outro). No entanto, segundo Freud, este sentimento oceânico é uma «ilusão».
Mas Freud colocou igualmente o amor no coração (kern) da análise. Porquê? Porque é pela via do amor que o sujeito pode construir um saber sobre o seu sintoma.
Isto exige que o analista seja o sujeito suposto saber e o objecto de amor do analisando. O problema, no mundo actual, é que se dessupõe normalmente o saber ao analista, ódio que faz com que ele não consiga mais garantir uma justa articulação entre amor e saber.
No entanto, a análise continua a operar. Como? Para responder a esta questão, convém reinterrogar o que, na transferência, ultrapassa o amor de saber.
Esta interrogação foi a de Lacan no final do seu ensino. Defendeu, então, a existência de um «novo amor», de um amor para além da repetição, aberto à descoberta, à criação e à invenção. No Seminário XXI, Les non-dupes errent, que é também um ensino sobre aqueles que não se deixam mais enganar pelo Pai, Lacan diz do amor que é: «a ressonância que o meu nó borromeano suporta».[2] O amor é um nó que se suporta do nó borromeano RSI. O fio imaginário é o afecto corporal que proporciona ao sujeito a experiência mais próxima da completude. O fio simbólico é o do nome, da lealdade e garantia do pacto. O fio real consiste no que é impossível de dizer. Esta última dimensão explica porque que é que o amor «não cessa de não se escrever», de produzir mitologia, religião, filosofia, arte, etc.A impossibilidade de escrever mostra que a relação sexual não se consegue inscrever no real. Desde logo, o amor é aquilo que protege o sujeito da não existência de completude sexual. Ele faz como se esta relação pudesse existir, no infinito.Podemos então dizer com Vinicius de Moares: «o amor é a coisa mais triste quando se desfaz.
Eixos temáticos:
- O Nascimento do Amor: os testemunhos dos místicos, dos poetas e dos filósofos
- O Primeiro amor sublimado ou amor cortês: o amor dos semblantes
- O amor Cristão e Romântico
- A descoberta do amor em Freud
- Narcisismo e Anaclitismo
- Ideal do eu e Eu ideal.
- As formas de amor no homem e na mulher: amar (activo) e ser amado (passivo).
- O amor na neurose: angústia e fobia
- O amor na perversão: o fetiche
- O amor na psicose: a erotomania; o amor como possibilidade da estabilização duradoura do sujeito.
- O amor como afecto e como paixão do ser: amor, ódio e ambivalência.
- Amor entre gozo e desejo
- O amor e a transferência: o saber suposto e o objecto.
- O amor como suplência à relação sexual.
O Banquete
Em Platão e no Seminário VIII de Lacan
O Simpósio de Platão inclui as regras do jogo (as chamadas «normas simpóticas» visavam a moderação da ebriedade dionísiaca pelo equilíbrio apolíneo) de uma cerimónia que se tornou habitual entre a elite grega e um tema literário (Xenofonte, etc.), aquilo que chamamos vulgarmente um «banquete».
O texto introduz elementos pouco habituais nos diálogos de Platão, como o Prólogo, em que o narrador, Apolodoro, fala com um amigo sobre o que Aristodemo lhe contou há muitos anos atrás sobre um banquete em que Sócrates participou. Esta conversa preliminar serve para indicar o local e a regra do referido banquete: a casa de Agatão (literalmente o Bem), poeta trágico recentemente laureado, e o pedido feito aos convivas para que desta vez não bebessem em demasia entre o jantar (ceia) e o fim da reunião, que era muitas vezes a orgia. É a aceitação desta regra que torna possível ir para além das habituais preces e cânticos, ou seja, de colocar o gozo oral (comer, depois beber e talvez f….) sob a égide dos discursos. Em vez de fazer amor, vai se falar de amor.
Este esforço para introduzir as articulações significantes no imaginário do corpo passa pelo posicionamento dos vários sujeitos da enunciação. Os convidados que tomarão a palavra depois de cada «interlúdio» são todos discípulos de Sócrates, o Mestre, logo falarão como pequenos mestres:
Fedro é um sofista discípulo de Hípias (cf. Protágoras). Ele é o «o pai do assunto», quem propôs o tema a versar. O seu discurso caracteriza-se por seguir os lugares comuns da Retórica, a tal ponto que Lacan o chama «mitómano». Como era de bom-tom, Fedro começa por falar dos mitos e louva a origem de Eros, um dos primeiros deuses saído do Caos originário. O elogio do amor divino alarga-se ao elogio do amor como fonte da virtude humana. Fedro dá uma série de exemplos sobre a acção e a paixão erótica, onde o amante (érastès) procura substituir o ser do amado: Orfeu que vai ver Euridice aos Infernos, Alceste que se sacrifica para salvar o seu marido e, finalmente, o mais sublime dos amores, Aquiles seguindo furiosamente na morte Pátroclo. Esta série sugere que o amado (érômenos) é o elo mais fraco no amor. Mas trata-se de um mito, que o resto do Simpósio vai desconstruir.
Pausanias é um homem rico. Ele pensa no amor em termos socioeconómicos, pois só lhe interessa investir num objecto com alto valor de troca, caso do seu amante Agatão, o tragidiógrafo premiado. Lacan aproveita para tecer toda uma série de considerações sobre a «psicologia do rico». Pausanias era também tido por defender as ideias do jovem de Platão relativamente ao amor grego, o amor dos belos rapazes (permitido na guerreira Esparta e desejado, mas ilegal, em Atenas). Lacan diz-nos que, apesar de ser bem aceite pelos Gregos, a homossexualidade é uma perversão da norma da reprodução. Para resolver o problema, Pausanias explica-o pela existência de duas Afrodites: a celeste filha do Urano, e a filha de Zeus e de Dioné. A primeira, que nada tem de feminino, preside ao amor pederasta. A segunda teve uma mãe e é única que pode ser considerada uma mulher. Esta Afrodite vulgar ou até desavergonhada serve sobretudo para indicar que se deve ser temperante em matéria de sexo. Só o amor promovido pela Afrodite divina tem um valor de troca que vai para além do sexo ou que visa a formação de guerreiros e de cidadãos não indiferentes aos seus parceiros. Pausânias chega então à pausa (isologia ou trocadilho do narrador Apolodoro que brinca com um «já chega!» da sua conversa).
Na série dos discursos (pela direita), Eríximaco toma a vez de Aristófanes, que tinha entretanto sido vítima de um ataque de soluços. Como médico, dá-lhe um certo número de soluções contra os soluços, e fala em seguida do amor na medicina, do amor físico e da natureza equilibrada dos humores. Na verdade, esta harmonia é vista como universal, devendo não só governar o organismo, como os acordes da melodia musical e as esferas do Cosmo. O discurso médico sobre o cuidado de si visa também o mau amor, a parte vadia de Eros ou da Afrodite popular, isto é tudo o que introduz a desarmonia nos corpos bem adaptados ao meio e leva ao desacordo, à discordância que é o sintoma. Eríximaco conclui que o mais importante é que amor e seus prazeres não ponham em risco a saúde. Por esta razão, a medicina antiga dizia ser a «ciência da erótica do corpo» – boa definição da psicanálise, diz Lacan na época.
Recuperando a fala, o comediógrafo Aristófenes começa por dizer a Eríximaco que até o corpo exige por vezes receitas desequilibradas, como as cócegas e os espirros que ele lhe aconselhou para fazer parar os soluços. Aristófenes é o bobo da corte, mas o único que fala do amor como deve ser. Para tal, inventa uma pequena comédia. Conta o que aconteceu aos três tipos de seres que existiam na origem, o Homem, a Mulher e o Andrógino: a divisão seguida de umas cambalhotas que indicam que o amor, mais do que ridículo, é cómico. Porquê? Por que o amante e o amado não podem fazer Um só, apesar da aspiração ao Todo dos dois; o amado apenas pode dar o que não tem ao amante, àquele a quem falta o amor. O que resta desta divisão da Esfera ou do Ovo primitivo – com a castração de Zeus pai como pano de fundo – é o desejo. E sua significação fálica, pois é em torno do Falo que gira a Comédia antiga. Conclusão: o amor (Eros) também deseja e deixa a desejar.
Agatão vem de novo encobrir esta falta com o seu discurso mítico-poético demasiado pleno ou vazio, onde só a sua imagem idealizada (narcísica) e o seu nome próprio (o Bem) acabam por brilhar. Será isto para significar que o Bem é o único e verdadeiro objecto do amor?
Sócrates chega atrasado ao banquete e volta a falar da sua ignorância, desta vez em matéria de amor. Confirma que, depois de Agatão ter discursado, ficou reduzido ao silêncio (como o analista). Pedem no entanto ao Mestre para dizer qualquer coisa. Ele aproveita para introduzir a dialéctica nos anteriores monólogos, fazendo com que estes dialoguem entre si ou que cada um mostre o que falta ao outro. Todos os discursos versaram sobre um tema, o amor, de que enalteceram a natureza e os atributos, que por vezes idealizam. Distinguiram entre Necessidade (física) e Demanda de Amor (divino), e fizeram o elogio do ideal: disseram que o amor tem de ser jovem, belo e bom, virtuoso, delicado, temperante, prudente, inteligente, corajoso, etc. Mas o que cada discurso esqueceu foi o objecto de amor que se encontra por detrás do ideal. Porque este objecto falta, o discurso seguinte procurou falar desta falta. Sócrates desenvolve, então, a dialéctica do desejo introduzida por Aristófanes e os outros sujeitos da enunciação, apontando sempre para o que falta. O que ensina é que apenas se pode desejar o objecto que não se possui. Tudo o que já temos, como é o caso dos nossos pais, não constitui um objecto de desejo.
Ao próprio (discurso de) Sócrates tinha de faltar alguma coisa (% e a), razão pela qual ele remete primeiramente esta falta para uma mulher (Diotima), e depois para Alcibíades.
Diotima é uma estrangeira de Mantineia, uma sacerdotisa, feiticeira ou mistagoga (fictiva?) com que Sócrates teria falado na sua juventude. É a esta mulher que faz apelo aqui para indagar os mistérios últimos (da falta) do amor:%
Ela ajudará também Sócrates a dar a estocada final em Ágaton. Como o discurso de Sócrates, o discurso de Diotima mostra um Ágaton cheio de contradições. Por exemplo, o Bem com que ele se identifica é uma espécie de termo vazio ou sem predicados. O essencial, ensina Diotima, é o bem eterno, a eternidade do objecto de amor. Este objecto é um neutro (éromenon) que transcende o amante e o amado. No entanto, é isso que ambos visam para além do sexo e da morte.
Não de maneira abstracta ou puramente retórica, como na maioria dos discursos que se escutaram, mas de um modo muito concreto, desde do desejo de ter uma criança – e Diotima como mulher está aqui qualificada para falar do desejo de alimentar e fazer durar até à velhice um rebento de si mesma –, até ao desejo de criar uma obra digna das Leis da Cidade, dos vindouros e dos deuses (o que Alcibíades tentou, mas falhou).
Não é por acaso que a lenda conta que a mãe de Eros se chamava Pénia, a Penúria ou a Pobreza. Eros participa da sua indigente mãe, mas também do seu pai, Poros, o Expediente. Isto serve para dizer que, como a palavra, o amor é um medium, um intermediário (metaxú) entre os homens e os deuses, entre os que não conseguem e os que conseguem a relação sexual.
No final desta dialéctica aparece a vida na pessoa de Alcibíades:
«Quem pensa de maneira mais profunda ama o que é mais vivo»
(Heidegger, a propósito do Banquete)
Alcibíades entra com o seu séquito, desconhecendo ou não respeitando a regra discursiva do banquete. Como político, Alcibíades fez e desfez a fortuna de Atenas. Dizia-se que por culpa de Sócrates, mas o Banquete corrige dizendo que foi à revelia de Sócrates. Alcibíades era jovem, belo, inteligente e audacioso, uma espécie de «pré-Alexandre» (Lacan). Ele chega completamente ébrio à reunião, para dizer diante de todos que foi o primeiro objecto de amor de Sócrates, mas que este nada fez quando dormiu com ele. Finalmente, afirma que, apesar de todas as qualidades físicas e morais que Sócrates sempre mostrou, ele nunca amou realmente o Mestre, o invólucro ou o cofre do tesouro (que compara a uma estatueta de Sátiro ou de Sileno, companheiros de Dionísio), mas sim o objecto, a preciosa jóia (agalma) que tinha lá dentro, a Sabedoria. Conclusão: o amor supremo é o amor da sabedoria – definição etimológica da própria filosofia.
Alcibíades sentara-se entre Agatão (o Bem) e Sócrates (o Filósofo). Sócrates ironiza dizendo que, com este gesto, ele não conseguirá separar o objecto do amor e a sabedoria, e que por isso irá sentar-se entre ele e Agatão, ocupar a posição «entre» o bem e o Bem. Esta conclusão do Banquete volta a sublinhar a equivalência entre Eros e Sócrates, o seu lugar de metaxú, que é o mesmo do daimon que tinha assaltado o jovem Sócrates e inoculado nele o amor (entre sensível e inteligível) da Sabedoria. Este lugar atópico (como o desejo do analista, que mais não faz que deixar aberto o lugar do desejo de cada um) é realmente o do objecto perdido (metonímico) do desejo. Este objecto está para além da Ideia (Bem, Bom, etc.), animando ou dando alma à falta que atrai o amante e o empurra para o amado a quem supõe ou atribui o seu bem-bom.
No seu conjunto, o diálogo de Platão faz sobressair a importância do objecto do desejo, através do uso da dupla metáfora do amor. É o discurso de Fedro que fornece a primeira metáfora do amor, aquela que cria a significação do amor como um deus poderoso, que dá força ao amante ($) para possuir o amado (a). A segunda metáfora do amor é dada pelo delírio alcoólico de Alcibíades (in vino veritas), e é o avesso da primeira: a/$. Algo de análogo se passa na análise da transferência entre o analista (objecto) e o analisando (sujeito).
O que anima a transferência é o objecto que o analisando julga ser o sujeito suposto saber (como os discípulos de Sócrates). É este objecto de amor que o analista vem encarnar no «banquete» analítico.
O Nascimento do Amor na Psicanálise
Há alguns anos, num Colóquio da SPP, escutei o falecido David Mourão Ferreira falar sobre a poesia de Safo, a poetiza grega da ilha de Lesbos. Os Gregos consideravam que tinham dois grandes poetas: Safo para o amor e Homero para a guerra. Mesmo se não foi a sua intenção expressa, fiquei desde então a pensar que ele tinha tido o descaramento de tomar a palavra diante dos psicanalistas para falar do que eles não ousam falar: que Freud descobriu o amor na análise como amor lésbico. E não dirá Freud mais tarde que o amor transferêncial não só é um amor genuíno, como nos revela a verdade do amor?
Retomo por enquanto este fio condutor. Podemos reencontrá-lo no «caso Dora» (consultas: 1898 - redacção: 1901- publicação: 1905). Dora amava a Senhora K e não o Sr. K, mas Freud não soube entender um tal amor enquanto Dora foi às suas consultas. Apesar de tudo o que é dito nos Três Ensaios, a dificuldade em admitir este traço homossexual da personalidade histérica teve consequências na história da psicanálise: Freud perdeu a sua paciente; em troca, ganhou o saber que conduziu ou permitiu desenvolver o conceito de «transferência».
Esta separação-conjunção entre amor e saber que se produziu com «o caso Dora» leva-me a interrogar o amor lésbico a vários níveis. Por exemplo, quem sabe se a futura relação de Anna Freud com Dorothy Berlingham não é ainda um sintoma do pai da psicanálise, o único lugar que a filha e analisanda de Freud encontrou para se posicionar de um modo singular, que não fosse o da fidelidade ao Mestre?
Podemos pensar que o exemplo que Freud dá em 1915 no seu artigo Obervações sobre o amor de transferência é «politicamente correcto»: o enamoramento da analisanda pelo seu analista. Nem uma palavra neste texto sobre o amor de transferência homossexual (com Fliess e os discípulos, quase todos homens). Este apagamento da homossexualidade, que Freud considerava ser um desvio da norma ou uma «perversão», valeu-lhe mais tarde algumas acérrimas críticas. Foi o que aconteceu como o «lobby» homossexual que, nos EUA, pressionou os cientistas e médicos do DSM a remover a orientação sexual não-heterossexual da lista de doenças mentais em 1973.
Apesar de tudo, Freud foi bem mais tolerante com a homossexualidade do que a grande maioria dos seus seguidores (com excepção de Ferenczi). É no início do seu artigo sobre a Psicogénese de um Caso de Homossexualidade Feminina (1920) que faz o seu mea culpa. Escreve: «a homossexualidade feminina, tão frequente como a masculina, ainda que menos ruidosa, mas não tem sido entendida pelas leis penais, nem pela investigação psicanalítica».
O texto apresenta o caso de uma jovem de 18 anos que gostava de uma «cocotte» da aristocracia vienense, mas que os seus pais queriam «curar» casando-a com um homem. A reprovação familiar do comportamento da jovem – qualificado por eles de «vício» – condiziu-a a uma tentativa de suicido.
Este caso torna claro para Freud que a homossexual não está doente, nem procura mudar de orientação sexual, o que vota ao insucesso a família, a moral social e o analista que apostariam numa conversão heterossexual da homossexualidade. Aproveita, ainda, para avisar os interessados que os pedidos de conversão de um mau comportamento em bom comportamento na vida de casal, ou na educação dos filhos, apresentam o mesmo tipo de dificuldades, porque não é normalmente o «mau comportado» que pede a ajuda médico-psicológica.
A questão coloca-se de saber se a homossexualidade é inata ou adquirida, biológica ou construída socialmente. Freud diz que esta questão está mal colocada. Do ponto de vista da psicanálise, o que importa é sobretudo a causalidade psíquica, a psicogénese do objecto libidinal e a consequente escolha forçada do sujeito.
A hipótese que Freud adiantou para a homossexualidade masculina é que esta seria uma variante sexual causada por uma perturbação no desenvolvimento, em particular pela forte fixação do menino à mãe, que faria, em seguida, com que o rapaz não conseguisse enamorar-se de mais ninguém do outro sexo, contentando-se com um gozo narcísico algo conformista.
Mas o que é a homossexualidade feminina? A tese da forte fixação à mãe coloca aqui um problema, pois aparentemente trata-se do amor entre duas mulheres, amor «sem» homem, logo, «sem» pai. No entanto, Freud considera que a falta do/ o pai continua a ter importância na exagerada fixação da filha à mãe.
Uma das principais reivindicações da menina em relação à sua mãe é que a mulher que ela é, para além de ser esposa do pai, a ajude a descobrir a feminilidade. Mas esta distinção entre mulher, esposa e mãe nem sempre é viável. Pode-se, então, pensar que era a feminilidade que Dora procurava na Senhora K (e sobretudo na Madona de Dresde), e a jovem homossexual na dama por quem se enamorara.
Quando a demanda de amor prevalece numa mulher, indica que ela se sente angustiada em relação à sua feminilidade, quer ser reconhecida como uma verdadeira mulher e entra em competição com as outras mulheres para ser amada como a única. A dor feminina gira aqui em torno da privação do significante da Mulher, do significante que garantiria a sua feminilidade.
No caso da jovem homossexual, não só este significante falta, como o seu amor inclui o ódio. Ela sabe perfeitamente quanto é desagradável ao seu pai saber que ela tem uma relação com uma cocotte, e vinga-se dele mostrando-se em público com esta mulher.
Como é que a jovem chegou a este posicionamento sexual e existencial? A hipótese clássica é que, durante a fase edipiana, a menina quer ser amada pelo pai e ter um filho dele. É assim que a jovem homossexual se apaixonou por uma criança de três anos. A última gravidez da mãe (era ela adolescente) suscitou-lhe grandes ciúmes e sentimentos de decepção em relação ao pai. Passou, então, a identificar-se com o pai, e a ter como objecto a mãe.
A dama (que era mais velha do que a jovem) é um substituto da mãe, mas também do irmão mais velho, que tinha um pénis que a impressionou e pelo qual ela nutria um amor incestuoso (a dama tinha também atributos físicos que lhe lembravam o irmão). Condensando a mãe e o irmão, a dama era um objecto que reunia a homo e a heterossexualidade, uma espécie de «mãe fetichizada» (Serge André).
Podíamos mesmo falar de «Dama», porque a jovem tinha um amor cortês por ela: oferecia-lhe flores, fazia-lhe o beija-mão como um cavalheiro, etc. –. Na verdade, a jovem visava mostrar ao pai como ele se devia ter comportado com ela. Desafiava-o a amá-la do mesmo modo que ela amava a dama.
Por fim, a jovem começa a passear de braço dado com a dama na rua em que o seu pai trabalhava, e à hora em que ele saia do emprego. Dá-se o encontro inevitável. Ao cruzar-se com ela, o pai lança-lhe um olhar fulminante que a reduz, por assim dizer, a nada. Sente-se, então, inteiramente negada no seu ser de sujeito, reduzida ao objecto de ódio que lançará por cima da ponte do caminho-de-ferro. Como a dama fica furiosa quando sabe que o pai da jovem lhe lançou aquele olhar enfurecido, podemos ainda dizer que ela passa da condição de objecto de amor da jovem a aliada do pai. A jovem perde o seu duplo suporte identificatório (materno e paterno) ao sentir-se rejeitada pelo pai e a dama. É então que passa ao acto: lança-se por cima do muro de uma ponte onde passava o comboio. No entanto, não morre. Depois de curada dos ferimentos do corpo é levada a Freud para que este sare as cicatrizes da sua alma.
Freud não se ocupa muito da salvação da alma da jovem como lhe pedia o pai desta, interessando-se sobretudo pela causa material do acto suicida. Diz ele que aquele salto por cima do muro do caminho-de-ferro tem uma dupla significação: simboliza a queda do objecto (a, ou alma) de amor da jovem ($), mas também a luz que daí brota (%). Baseia-se para esta interpretação no equívoco do verbo alemão Niederkommen, «vir abaixo», cair e dar à luz (no sentido do parto). Diz que foi o (olhar do) pai que fez cair a jovem, e que o seu acto é simultaneamente uma realização de desejo (desejo de ter um filho do pai) e uma (auto) punição.
Revisitando posteriormente o caso da jovem homossexual, Freud sugere que talvez não tenha sido o trauma do nascimento do irmãozinho e a decepção do amor do pai na puberdade que tenham estado na origem da sua orientação homossexual. Constata em vários momentos que outras mulheres, uma professora, algumas amigas etc, ocuparam uma posição de objecto de amor, se preferirem, de mães substitutas. Mostra, ainda, que «desde anos muito precoces» a libido da jovem «fluíra em duas correntes, das quais uma pode ser designada como homossexual». Esta corrente seria uma continuação directa da fixação infantil à mãe. Daí que, que logo que surgiu a ocasião propícia, a libido tenha voltado à sua inclinação profunda para a homossexualidade. Aqui começa a pré-história do complexo de Édipo, bem como aquilo que Freud escreverá sobre o «continente negro» da sexualidade feminina.
Freud aproveita ainda para fazer uma digressão sobre a homossexualidade latente, inconsciente que pode ser detectada «em todas as pessoas normais»; e. a partir daí, sublinha uma vez mais a bissexualidade fundamental do ser humano. Haveria a persistência de uma relação primordial à mãe, apenas perturbada pela intervenção do pai edipiano. Significará este amor sem pai que todas as mulheres são psicóticas, ou naturalmente homossexuais?
Por enquanto, o importante é entender que o pai não é suficiente para desenhar um destino feminino, isto é, fazer com que a menina se torne uma mulher que deseje ter filhos. Dito de outro modo, nem tudo na filha fica sujeito à lei do pai.
A jovem homossexual contou a Freud que tinha uma relação muito especial com a mãe, que fora a sua confidente antes dele. Contou-lhe também algumas verdades sobre a sua mãe, que Freud diz não poder revelar. No entanto, sugere que a mãe era neurótica, ou melhor, que se refugiou na «neurose» para se afastar de um marido demasiado solícito. Isto – como o facto de, contrariamente aos outros filhos, ela tratar a filha muito mal (por ela amar uma outra mulher?) – pode fazer pensar que existia alguma tendência homossexual na mãe.
Voltemos à questão geral de saber se as mulheres, mães e filhas, são tendencialmente homossexuais? E, se persistirmos na ideia que a homossexualidade é uma perversão da norma biospsicosocial, a questão suplementar é se existe uma perversão feminina?
Tradicionalmente, diz-se que ambos os sexos têm como primeiro objecto de amor, a mãe. Neste sentido, pode-se pensar que as mulheres são tendencialmente homossexuais. Mas esta homossexualidade não é uma perversão. Aliás as mulheres não podem ser estruturalmente perversas, dado que estão privadas do órgão que está em jogo na instrumentalização do gozo perverso, o pénis. É nas suas brincadeiras com o pénis e seus substitutos que as mulheres colaboram activa ou passivamente nas perversões dos homens. Mas Lacan não deixou de dizer que as mães mostram muitas vezes ser perversas com as suas crianças, na medida em que estas são para elas substitutos do falo. Será a perversão da mãe uma versão do seu amor pelo pai, uma «père-version»?
O homem ou o pai encarado como objecto de amor leva-nos para a vertente anaclítica do amor no feminino (pai = pénis = bebé). Mas o amor da mãe pela filha pode também ser narcísico, a mãe amando então na filha a menina que ela foi.
O amor da histérica pela outra mulher aponta ainda para Outra coisa: o facto da mãe do Homem (em geral) ser sempre uma mulher. Seguindo esta via, podemos ser conduzidos até ao Mistério da Feminilidade, ao Eterno Feminino que eleva para as alturas, como dizia Goethe.
A questão interessante, que permanece, é aquela que Marie-Christine Hamon colocava há alguns anos, a saber, «porque é que as mulheres preferem os homens em vez da sua mãe?»
A resposta freudiana foi no sentido do complexo de Édipo e de castração. Num primeiro momento, Édipo tem um papel normalizador do indivíduo e da sociedade. A ideia é que a bissexualidade congénita (diríamos hoje ligada ao Cromossoma X e não só a atracção sexual pelos dois géneros) e a perversão polimorfa da criança de ambos os sexos são reorganizadas durante a passagem da libido pela estrutura edipiana. O pai edipiano inter-fere então como o obstáculo que se encontra no caminho do amor pelo objecto precoce que a mãe ou a mama encarna.
Mas a partir de 1919, em Uma criança é batida, Édipo torna-se o «complexo nuclear» do psiquismo humano, não só do psiquismo normal, como da neurose, psicose e perversão. É dizer que a perversão também resulta do complexo de Édipo ou que este deixa espaço para a transgressão da lei do desejo (a do objecto perdido). A posição do pai edipano – e a do analista que se colocaria no seu lugar sob transferência, como Freud com a jovem homossexual – fica desde logo comprometida.
A primeira ideia era que aquilo que se ganharia com a perda do amor da mãe incestuosa é a cultura. O problema é que a cultura – à qual os homossexuais sempre contribuíram fortemente – não supera, mas exige o recalcamento primordial do real a que se chama «Natureza», a consecutiva ânsia da realização do desejo pela via do fantasma, o incurável do sintoma e o mal-estar na civilização, que continua a conter vários estratos de selvajaria e barbárie.
No final da sua obra, quando faz o balanço dos próprios males da psicanálise, Freud refere-se ao repúdio comum da Feminilidade (angústia da castração/inveja do pénis). A homossexualidade feminina fica aqui uma vez mais de lado. Será ela apenas uma consequência da inveja do pénis (como parece indicar o mito da organização político-guerreira das Amazonas (que se auto-castram um seio para atirar mais facilmente as suas flechas fálicas)?
Que lição tirar desta resistência freudiana para a análise da transferência? Uma primeira ideia a investigar é se, por detrás da transferência paterna que Freud tende a sublinhar ou até a sublimar, não há sempre a transferência materna, melhor, a ligação do analisando ou da analisansa com um erzats da Mulher que não existe.
O primeiro fim-de-semana de Fevereiro 2007
O primeiro fim-de-semana de Fevereiro 2007 foi bastante instrutivo para mim. Dias antes fui convidado com alguma pompa e circunstância, enquanto Presidente da ACF, para assistir na Biblioteca Nacional ao II Fórum Internacional da Sociedade Poruguesa de Psicologia Clínica, sobre os «desafios actuais» das nossas profissões. Encontrei lá pessoas que não via há anos, e percebi que pertenciam ou colaboravam quase todas com esta Sociedade, isto apesar de virem de quadrantes bastante diferentes. Encontrei, por exemplo, o nosso colega de Évora da rede de investigadores EAUTP, Victor Franco, que é o actual Presidente da SPPC. Encontrei igualmente o Carlos Amaral Dias. Disse-me que as condições estavam agora reunidas para relançar a nossa rede de investigação em psicanálise. Depois, ele e o Pedro Luzes convidaram-me a ir à noite à SPP, para assistir à conferência do Presidente da Associação Brasileira de Psicanálise (que reagrupa as 12 Sociedades da IPA no Brasil), Pedro Gomes Oliveira, sobre a «Psicanálise relacional contemporânea: uma nova maneira de trabalhar em psicanálise». No dia seguinte fui convidado por Jorge Gravanita, da Direcção da SPPC e do Centro Português de Psicanálise, para colaborar futuramente com a SPPC.
Aceitei a proposta e já escrevi a Victor Franco neste sentido. Ele respondeu-me favoravelmente. Vai propor em Março à Direcção da SPPC a minha entrada como supervisor.
Nestes dois dias escutei coisas interessantes e por vezes bizarras sobre a psicanálise, o ensino, a investigação, a clínica e a futura certificação em psicologia clínica e psicoterapia, e ouvi ideias muito «originais» sobre a transferência.
Nunca digo mal dos meus colegas, digo é por vezes mal do que eles dizem. Sobretudo, faço um grande esforço para dizer melhor o que eles dizem mal.
Dou dois exemplos de coisas que considero bastante mal ditas. Aquele que é possivelmente o mais prestigiado psicanalista português vivo, António Coimbra de Matos, afirmou no Fórum que a relação básica entre humanos (da esfera alimentar à sexual) não é a da mama com a boca, mas a de rosto a rosto. Isto implica uma passagem da concepção da sessão analítica como mamada para a entrevista clínica olhos-nos-olhos, o que põe em causa o divã do psicanalista que, no entanto, Coimbra de Matos continua a utilizar. Eduardo Sá também não esteve bem, quando afirmou que o inconsciente é uma metáfora da dupla consciência (cortical e sub-cortical, racional e emocional), e que o «topo de gama» da mente é a intuição (tanto do bebé como do psicoterapeuta) que une as duas consciências.
Falemos agora da questão da transferência. Regra geral, os meus colegas continuam a pensar que o que está na base desta é a relação cada vez mais precoce – pois já vamos no feto das primeiras semanas – do bebé com a sua mãe. Quem é primeiro do ovo ou da galinha? Eduardo Sá diz que o feto vem totalmente equipado. Mas Coimbra de Matos diz que a mãe-galinha é crucial, pois o bebé nasce de mioleira aberta (Maria Belo) e nada é sem o outro; nomeadamente aquele que vê o seu bebé como o mais bonito do mundo. É pois o outro – quem? Alguém disse por lá que qualquer homem ou mulher pode perfeitamente desempenhar as funções paternais – que envolve e desenvolve a relação constituinte do ego ou do self.
Depois der ter discursado durante duas horas na SPP sobre o self, Pedro Gomes acabou por concordar com os ouvintes sobre o facto que ninguém sabe ao certo o que é o self.
Existem duas correntes na IPA para pensar o self. A primeira, de origem annafreudiana, continua a referir a subjectividade que normalmente se atribui ao Eu ao indivíduo biológico. Heinz Kohut, que tinha o apoio de Anna Freud, refere igualmente o self ao organismo. É esta referência básica que lhe permite dizer que o menino de Viena e o psicanalista de Chicago são o mesmo (self). Carlos Amaral Dias comentou esta afirmação dizendo que ela não difere muito do conceito de «potência» em Santo Agostinho. Pedro Luzes disse que o melhor seria reler Kohut.
O termo Selbst aparece já em Freud e nos kleinianos. Em oposição a Anna Freud estiveram Melanie Klein, Bion e sobretudo o middle group, Fairbain, os Balint, Winnicott, em suma os teóricos da chamada «relação de objecto». Estes objectaram que o vínculo (Bowlby) prevalece na constituição do self humano e no dispositivo analítico.
O que é a relação e o seu objecto? Antes de Didier Anzieu, Esther Bick sugeriu que aquilo que dá sentido à relação do objecto (bom, mau, etc.) com o self é mediação da «pele» (física e mental). Diz ela: «As experiências sensoriais, particularmente as da superfície da pele, são o meio mais importante para produzir sentido e gerar os rudimentos da experiência do ‘self’. A contigüidade sensorial da superfície da pele e a cadência rítmica são básicas para o conjunto mais fundamental de relações de objecto infantis: a experiência do bebé de ser segurado, amamentado, ouvindo a mãe conversar com ele.»
Na escola inglesa, o objecto é o objecto interno ou internalizado, em última instância é o seio da fantasia. Na escola americana pós-kohutiana, o objecto é antes de tudo o objecto externo, (o) outro.
Pedro Gomes partilha aqui a opinião dos actuais relacionistas integracionistas, que tentam unir o self de Kohut com as duas concepções do objecto. Podemos dizer que acabaram por descobrir aquilo que o primeiro ensino de Lacan, o do esquema L dos anos 50, chama a «relação imaginária» ego/alter-ego, relação que leva a uma dinâmica transferêncial conflituosa, no fundo mortífera. Espero poder estudar ainda este ano convosco o modo como esta relação interfere no texto do Mercador de Veneza de Shakespeare.
A partir do momento em que se privilegia a intersubjectiviade em desfavor da biologia, pode negar-se o factor constitucional individual e específico na determinação da subjectividade. Nesta mesma onda, Coimbra de Matos disse mesmo que a análise não é a análise do indivíduo, mas da relação. Assim, a análise não começa pela transferência, mas pela contra-transferência. Numa entrevista na televisão, tinha já afirmado que o mais importante é se o psicanalista gosta ou não do seu paciente.
Na verdade, a oposição entre o biológico e o social, o constitucional e o acidental, entre o Eu e a inter-subjectividade não é o que mais devia contar para a psicanálise, para a construção do seu conceito de transferência.
Sem dúvida que Freud pensou também o ego a partir do corpo: «em última análise, o ego deriva das sensações corporais, principalmente das que têm origem na superfície do corpo. Ele pode ser assim encarado como uma projeção mental da superfície do corpo, além de representar a superfície do aparelho mental.»); Para Lacan, trata-se do corpo próprio: «À la place de l’Autre, il y a le corps, le corps-propre», e não do corpo orgânico, o organismo que cada indivíduo da espécie é. Freud pensou igualmente a unidade incorporal que resulta da identificação e escolha do objecto, aquilo que Lacan chama l´un-corps («L’ego s’établit du rapport à l’un-corps»; porque «L’un-corps est sa seule consistance»).
Mas o que convém sublinhar é que o aliado do analista na análise não é o ego, mas o sujeito que (lhe) fala. Dito de outro modo, é o sujeito que o significante coloca em função no campo da linguagem que busca «os objetos (a) na experiência analítica».
«Os objectos (a) na experiência analítica» é o título do VI Congresso da AMP. O cartaz do Congresso está bem feito, pois não apresenta o objecto (a) como coisa natural, mas gerado por formas geométricas num fundo de coordenadas cartesianas.
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[1] O quadro mais célebre sobre o tema (ligado às divindades femininas, ao culto da fertilidade, da vida e das forças da Natureza) foi pintado por Sandro Botticelli em 1482 (Galeria dos Uffizi, Florença). Um promenor desta pintura (Zéfiro soprando na inveja e o ciúme que a deusa inspira) ilustra a capa dos meus Ditos (I).
Freud é mais cáustico no que diz respeito a Vénus. Eis o propósito de Heine que Freud escolhe e nos recorda no seu livro sobre o Witz: «Esta senhora parece-se em muitos aspectos com a Vénus de Milo: é também extraordinariamente velha, sem dentes e com manchas brancas espalhadas por toda a superfície amarelada do corpo.»
[2] A frase é mais extensa, e fala também do amor como acontecimento, que não é senão um dizer…
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Os últimos Seminários
Algumas das lições destes Seminários foram publicadas na série Ditos (Lisboa: Fim de Século), de José Martinho
2005-2006
Um Outro Portugal
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2004-2005
Psicanalisar
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2003-2004
Sintoma e Estilo
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2002-2003:
Psicanálise e Psicoterapias
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2001-2002
O Que é um Sintoma Psicanalítico?
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2000-2001
Clínica do Gozo
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1998-1999
Gozo